Psicadélicos na depressão

A psilocibina, a ayahuasca e a DMT estão a ser estudadas no tratamento da depressão, sempre com acompanhamento psicológico e em ensaios clínicos. A psilocibina é a mais avançada, com ensaios de fase 3 na depressão resistente; nenhuma destas substâncias está autorizada como medicamento na União Europeia.1,2,17

Pintura de Thomas Cole: à esquerda, nuvens escuras de trovoada sobre uma colina com árvores partidas; à direita, um céu que clareia sobre um vale verde atravessado por um rio em curva

A trovoada afasta-se para a esquerda e a luz volta ao vale do rio.

Thomas Cole, Vista do monte Holyoke depois de uma trovoada — O Oxbow, 1836. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)

O que se está a estudar?

Estuda-se o uso de psicadélicos clássicos, como a psilocibina e a DMT, em sessões preparadas e acompanhadas, integradas num programa de psicoterapia. Estas substâncias atuam sobretudo no recetor de serotonina 5-HT2A.21

Nos ensaios, cada sessão é antecedida de preparação e seguida de sessões de integração, e a pessoa é acompanhada durante todo o efeito.1,20 O efeito estudado é o do conjunto, substância e acompanhamento, e não o da substância isolada.

O que mostram os ensaios com psilocibina?

Na depressão resistente, um ensaio de fase 2 publicado em 2022 mostrou que uma dose única de psilocibina, com apoio psicológico, reduziu os sintomas às três semanas mais do que uma dose de controlo.1 Os efeitos adversos foram frequentes e houve pensamentos ou comportamentos suicidas em todos os grupos, o que reforça a necessidade de acompanhamento clínico próximo.1

Dois ensaios de fase 3 com uma formulação sintética de psilocibina na depressão resistente atingiram o objetivo primário, segundo comunicados da empresa de 2025 e 2026.2,3 Em outubro de 2026, o pedido de autorização está a ser submetido à FDA por fases, com conclusão prevista para o fim de 2026, e ainda não há aprovação.4 A designação de «terapia inovadora» atribuída pela FDA em 2018 acelera o desenvolvimento, mas não equivale a aprovação.5

Na depressão major, ensaios aleatorizados mostraram redução dos sintomas face a lista de espera e a um placebo ativo.6,7 Num ensaio comparado com um antidepressivo ISRS, não houve diferença significativa no objetivo principal.8 Um ensaio de fase 3 na depressão major terminou a fase principal em 2026, sem resultados divulgados.9

Modelo tridimensional da molécula de psilocibina, com átomos representados por esferas ligadas

Psilocibina: no organismo é convertida em psilocina, que atua sobretudo no recetor de serotonina 5-HT2A.21 Modelo do site, também usado na página de terapia assistida por psicadélicos.

E a ayahuasca e a DMT?

Estão numa fase mais inicial. A ayahuasca é uma preparação tradicional que contém DMT e alcaloides que inibem a sua degradação no organismo, o que muda o perfil de efeitos e de interações.21 Num pequeno ensaio controlado com placebo na depressão resistente, teve um efeito antidepressivo rápido, avaliado apenas durante uma semana.10

A DMT por via intravenosa, de ação curta, teve resultados positivos num ensaio de fase 2a na depressão major,11 e uma formulação inalada de 5-MeO-DMT, uma molécula aparentada, num ensaio de fase 2b na depressão resistente, ambos publicados em 2026.12

A cetamina e a escetamina, com outro mecanismo, têm uma página própria: Cetamina e escetamina na depressão resistente.

Em que fase está cada substância?

A tabela distingue ensaios publicados, resultados comunicados por empresas e submissões regulamentares.

Estado da evidência, sem números: onde cada abordagem foi estudada e em que fase está.
AbordagemOnde foi estudadaEvidênciaFase
Psilocibina com apoio psicológicoDepressão resistenteEnsaio de fase 2 publicado1; dois ensaios de fase 3 positivos, segundo a empresa2,3Fase 3 · submissão regulamentar nos EUA em curso4
Psilocibina com apoio psicológicoDepressão majorEnsaios aleatorizados positivos face a lista de espera e a placebo ativo6,7; sem diferença no objetivo principal face a um ISRS8Fase 2 · fase 3 sem resultados divulgados9
AyahuascaDepressão resistentePequeno ensaio controlado com placebo, avaliado durante uma semana10Estudado
DMT por via intravenosaDepressão majorEnsaio de fase 2a positivo (2026)11Fase 2
5-MeO-DMT inaladaDepressão resistenteEnsaio de fase 2b positivo (2026)12Fase 2
Cetamina e escetaminaDepressão resistenteVer a página própriaEscetamina aprovada na UE · cetamina fora das indicações aprovadas

Que limites tem a evidência?

O principal é a dificuldade de ocultar o tratamento. Como os efeitos dos psicadélicos são evidentes, participantes e equipas sabem muitas vezes quem recebeu a substância, e a expectativa pode aumentar o efeito estimado.13,15 Quando a comparação é feita com a resposta ao placebo observada nos ensaios de antidepressivos, o efeito estimado da psilocibina fica menor.14

Os ensaios incluíram, em geral, pessoas cuidadosamente selecionadas, com seguimentos curtos, e os resultados de fase 3 conhecidos até agora foram comunicados pela empresa, antes da publicação científica.2,3,13

O que se avalia antes?

Avalia-se a história psiquiátrica pessoal e familiar: pessoas com antecedentes de psicose ou de doença bipolar são habitualmente excluídas destes ensaios.20 Avaliam-se também:

  • a saúde cardiovascular, porque os psicadélicos clássicos aumentam moderadamente a pressão arterial e o pulso;20
  • o risco de suicídio, vigiado ao longo de todo o ensaio;1
  • a restante medicação e o consumo de outras substâncias, incluindo, no caso da ayahuasca, as interações próprias dos alcaloides que contém;21
  • as condições de preparação, de acompanhamento durante a sessão e de integração.20

Durante a sessão pode surgir ansiedade intensa e transitória, a reação adversa mais provável, que se gere com preparação e acompanhamento.20

Qual é o enquadramento regulamentar?

Na União Europeia não há nenhum medicamento com psilocibina, MDMA, LSD ou DMT autorizado; em Portugal, o uso clínico destas substâncias limita-se a ensaios clínicos.17 A Agência Europeia de Medicamentos reconhece desafios próprios destes ensaios e exige, como para qualquer medicamento, um balanço benefício-risco positivo.16

Noutros países da UE existem vias excecionais e restritas: a República Checa permite desde 1 de janeiro de 2026 o uso terapêutico restrito de psilocibina, e a Alemanha tem desde 2025 um programa de uso compassivo na depressão resistente.18 Na Austrália, desde julho de 2023, psiquiatras autorizados podem prescrever psilocibina para a depressão resistente, sem que exista um medicamento registado.16 Nos EUA, a FDA publicou em julho de 2026 orientações finais para ensaios clínicos com psicadélicos.19

O que ainda não se sabe?

  • Quanto do efeito se deve à substância, ao acompanhamento psicológico e à expectativa.13,15
  • Quanto tempo dura o benefício e quando faz sentido repetir uma sessão.1
  • Quem beneficia mais, e quem deve ser excluído, fora das populações selecionadas dos ensaios.13
  • Os resultados completos e revistos por pares dos ensaios de fase 3.2,3,9

Que perguntas fazer ao psiquiatra?

  • No meu caso, que tratamentos aprovados ainda não foram experimentados?
  • Há algum ensaio clínico em curso para o qual eu possa ser elegível?
  • A minha história pessoal ou familiar exclui estas abordagens?
  • Como se distingue um ensaio clínico de uma oferta sem enquadramento?
  • Que acompanhamento existe antes, durante e depois?

Em resumo

  • A psilocibina é o psicadélico mais estudado na depressão, com ensaios de fase 3 positivos na depressão resistente, segundo a empresa, e uma submissão à FDA em curso.
  • A ayahuasca, a DMT e a 5-MeO-DMT têm ensaios pequenos ou de fase 2.
  • A dificuldade em ocultar o tratamento e a expectativa limitam a interpretação dos resultados.
  • Na União Europeia nenhuma destas substâncias está autorizada como medicamento; em Portugal o uso clínico limita-se a ensaios clínicos.
  • A avaliação prévia exclui, em regra, quem tem antecedentes de psicose ou de doença bipolar.

Referências

  1. Goodwin GM, Aaronson ST, Alvarez O, et al. Single-dose psilocybin for a treatment-resistant episode of major depression. N Engl J Med. 2022;387(18):1637–1648. doi:10.1056/NEJMoa2206443 PubMed (site externo)
  2. COMPASS Pathways. Comunicado de 23 de junho de 2025: primeiro ensaio de fase 3 com psilocibina na depressão resistente atinge o objetivo primário. Fonte (site externo)
  3. COMPASS Pathways. Comunicado de 17 de fevereiro de 2026: segundo ensaio de fase 3 com psilocibina na depressão resistente atinge o objetivo primário. Fonte (site externo)
  4. COMPASS Pathways. Resultados do segundo trimestre de 2026 (5 de agosto de 2026; Form 8-K, SEC): submissão faseada à FDA em curso, conclusão prevista no último trimestre de 2026. Fonte (site externo)
  5. COMPASS Pathways. Comunicado de 23 de outubro de 2018: designação «Breakthrough Therapy» da FDA para a psilocibina na depressão resistente. Fonte (site externo)
  6. Davis AK, Barrett FS, May DG, et al. Effects of psilocybin-assisted therapy on major depressive disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2021;78(5):481–489. doi:10.1001/jamapsychiatry.2020.3285 PubMed (site externo)
  7. Raison CL, Sanacora G, Woolley J, et al. Single-dose psilocybin treatment for major depressive disorder: a randomized clinical trial. JAMA. 2023;330(9):843–853. doi:10.1001/jama.2023.14530 PubMed (site externo)
  8. Carhart-Harris R, Giribaldi B, Watts R, et al. Ensaio de psilocibina comparada com um antidepressivo ISRS na depressão. N Engl J Med. 2021;384(15):1402–1411. doi:10.1056/NEJMoa2032994 PubMed (site externo)
  9. ClinicalTrials.gov. NCT06308653: ensaio de fase 3 com psilocibina na depressão major (registo atualizado a 23 de julho de 2026). Fonte (site externo)
  10. Palhano-Fontes F, Barreto D, Onias H, et al. Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychol Med. 2019;49(4):655–663. doi:10.1017/S0033291718001356 PubMed (site externo)
  11. Erritzoe D, Barba T, Benway T, et al. A short-acting psychedelic intervention for major depressive disorder: a phase IIa randomized placebo-controlled trial. Nat Med. 2026;32(2):591–598. doi:10.1038/s41591-025-04154-z PubMed (site externo)
  12. Cubała WJ, Bajbouj M, Bauer M, et al. Ensaio aleatorizado de 5-MeO-DMT inalada versus placebo na depressão resistente. JAMA Psychiatry. 2026;83(6):561–569. doi:10.1001/jamapsychiatry.2026.0096 PubMed (site externo)
  13. Metaxa AM, Clarke M. Efficacy of psilocybin for treating symptoms of depression: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2024;385:e078084. doi:10.1136/bmj-2023-078084 PubMed (site externo)
  14. Hsu TW, Tsai CK, Kao YC, et al. Revisão sistemática e meta-análise em rede bayesiana de monoterapias orais com psicadélicos e com um antidepressivo ISRS nos sintomas depressivos. BMJ. 2024;386:e078607. doi:10.1136/bmj-2023-078607 PubMed (site externo)
  15. Muthukumaraswamy SD. Overcoming blinding confounds in psychedelic randomized controlled trials using biomarker driven causal mediation analysis. Expert Rev Clin Pharmacol. 2023;16(12):1163–1173. doi:10.1080/17512433.2023.2279736 PubMed (site externo)
  16. European Medicines Agency. EMA multi-stakeholder workshop on psychedelics: workshop report. 2024 (inclui o enquadramento australiano desde 1 de julho de 2023). Fonte (site externo)
  17. Agência Europeia de Medicamentos, registo de medicamentos (consultado a 10 de outubro de 2026): sem autorização de introdução no mercado para psilocibina, MDMA, LSD ou DMT; Agência Europeia de Medicamentos, relatório do workshop sobre psicadélicos (2024). Fonte (site externo)
  18. República Checa, Lei n.º 270/2025 Sb., em vigor desde 1 de janeiro de 2026 (psilocibina para uso terapêutico restrito); Alemanha, programa de uso compassivo de psilocibina na depressão resistente, Zentralinstitut für Seelische Gesundheit, Mannheim (comunicado de 31 de julho de 2025). Fonte (site externo)
  19. U.S. Food and Drug Administration. Psychedelic drugs: considerations for clinical investigations, orientação final. Federal Register, 14 de julho de 2026. Fonte (site externo)
  20. Johnson M, Richards W, Griffiths R. Human hallucinogen research: guidelines for safety. J Psychopharmacol. 2008;22(6):603–620. doi:10.1177/0269881108093587 PubMed (site externo)
  21. Nichols DE. Psychedelics. Pharmacol Rev. 2016;68(2):264–355. doi:10.1124/pr.115.011478 PubMed (site externo)

Revisão clínica: Pedro Zuzarte, médico psiquiatra · Publicado: · Revisto: .

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