Cetamina (ketamina) e escetamina na depressão resistente
A cetamina (também escrita ketamina) é um anestésico que, em ensaios clínicos, mostrou um efeito antidepressivo rápido na depressão resistente. A escetamina (esketamina) é uma das duas formas da mesma molécula; em spray nasal, está autorizada na União Europeia para a depressão resistente, em associação com um antidepressivo e sob supervisão clínica.1,2

Um dos primeiros aparelhos desenhados para administrar um anestésico de forma regulada. A cetamina nasceu, um século depois, como anestésico.
John Snow, inalador de éter, em On the inhalation of the vapour of ether in surgical operations, Londres, 1847, p. 17. Gravura. Wellcome Collection. Domínio público. Registo da obra (site externo)
O que é a cetamina?
A cetamina é um anestésico geral injetável, usado na indução e manutenção da anestesia, na sedação para procedimentos e na analgesia; consta da Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde desde 1984.3
Atua sobretudo bloqueando o recetor NMDA, um dos recetores do glutamato, o principal mensageiro excitatório do cérebro.1 A molécula existe em duas formas espelhadas; a cetamina usada em anestesia é uma mistura racémica das duas, a escetamina e a arcetamina.1

O recetor NMDA humano, com a escetamina ligada no canal iónico, visto por criomicroscopia eletrónica.20
Recetor NMDA humano ligado à escetamina (PDB 7EU7; Zhang et al., Nature, 2021). Imagem: RCSB PDB. CC0. Registo da estrutura (site externo)
O que é a escetamina (ou esketamina)?
A escetamina é a forma S da molécula de cetamina, usada isoladamente. Tal como a cetamina, é um antagonista não competitivo do recetor NMDA.1
Em spray nasal, tem autorização válida em toda a União Europeia desde 18 de dezembro de 2019, para adultos com depressão resistente que não responderam a pelo menos dois antidepressivos diferentes no episódio atual, moderado a grave, sempre em associação com um antidepressivo ISRS ou IRSN.1,2 Desde fevereiro de 2021, a autorização inclui também um tratamento de curta duração, associado a um antidepressivo oral, para reduzir rapidamente sintomas depressivos que, segundo o juízo clínico, constituam uma urgência psiquiátrica.4
As condições de uso fazem parte da autorização. A decisão de prescrever cabe a um psiquiatra; o spray é aplicado pela própria pessoa, num contexto clínico apropriado e sob supervisão direta de um profissional de saúde; a tensão arterial é medida antes e cerca de 40 minutos depois; e a pessoa fica em observação até estar clinicamente estável.1
O que mostra a investigação?
Mostra um efeito antidepressivo rápido. O primeiro ensaio controlado, publicado em 2000, registou melhoria dos sintomas nas 72 horas seguintes a uma perfusão de cetamina, em comparação com placebo.5 Em 2006, um ensaio em depressão resistente confirmou um efeito com início em horas e duração de cerca de uma semana.6
A escetamina em spray nasal foi avaliada em ensaios de fase 3. Associada a um novo antidepressivo oral, foi superior ao antidepressivo com spray de placebo;7 mantida em quem tinha respondido, atrasou a recaída.8 Num ensaio de 2023, levou a mais remissões às oito semanas do que a potenciação com um antipsicótico atípico.9
Também em 2023, num ensaio aleatorizado em depressão resistente sem psicose, a cetamina intravenosa foi não inferior à eletroconvulsivoterapia.10 Um consenso internacional de peritos considera a cetamina e a escetamina os primeiros fármacos não monoaminérgicos com eficácia de início rápido demonstrada na depressão, com dúvidas ainda sobre o seu lugar nos algoritmos e sobre as condições de administração.11 Um consenso anterior, da Associação Americana de Psiquiatria, sublinhou as limitações dos dados e a necessidade de cautela.18
Em que fase está cada abordagem?
A tabela separa o que está aprovado do que foi estudado com resultados positivos e do que continua em investigação.
| Abordagem | Onde foi estudada | Evidência | Fase |
|---|---|---|---|
| Cetamina intravenosa, dose única | Depressão major e depressão resistente | Ensaios controlados com placebo: efeito rápido e transitório5,6 | Ensaio positivo · fora das indicações aprovadas |
| Cetamina intravenosa comparada com ECT | Depressão resistente sem psicose | Não inferior à ECT (2023)10 | Ensaio positivo · fora das indicações aprovadas |
| Escetamina em spray nasal com antidepressivo | Depressão resistente | Eficácia aguda e prevenção da recaída7,8 | Fase 3 · aprovado na UE (2019) |
| Escetamina comparada com potenciação por antipsicótico atípico | Depressão resistente | Mais remissões às 8 semanas9 | Fase 3b · aprovado na UE |
| Escetamina em urgência psiquiátrica, com antidepressivo oral | Episódio depressivo moderado a grave | Extensão de indicação aprovada pela Comissão Europeia4 | Aprovado na UE (2021) |
| Psicoterapia assistida por cetamina | Depressão; perturbação do uso de álcool | Revisão narrativa e séries sem grupo de controlo; ensaio de fase 2 no uso de álcool12,13,14 | Em investigação |
O que é a terapia assistida por cetamina (ketamina)?
É um modelo estudado em investigação que associa a cetamina a psicoterapia estruturada, em três tempos: preparação, antes da sessão; a sessão, com acompanhamento; e integração, depois, para trabalhar o que surgiu.12 Na literatura em inglês aparece também como terapia assistida por ketamina.
Uma revisão sistemática sugere que a psicoterapia antes, durante e depois das sessões pode prolongar os benefícios, com grande variação entre estudos; os autores pedem ensaios aleatorizados de maior dimensão.12 Os restantes dados vêm de séries clínicas sem grupo de controlo13 e de um ensaio de fase 2 na perturbação do uso de álcool, em que a cetamina com terapia psicológica se acompanhou de mais dias de abstinência aos seis meses.14 Na depressão, este modelo continua em investigação.
Que segurança e monitorização exige?
Exige avaliação prévia e vigilância em cada administração. Os efeitos mais típicos surgem no próprio dia e são transitórios: dissociação, uma sensação de distância em relação ao corpo ou ao ambiente que passa habitualmente em cerca de hora e meia, e uma subida passageira da tensão arterial, máxima cerca de 40 minutos depois.1
Antes de iniciar, avalia-se:
- a doença cardiovascular e cerebrovascular: a escetamina está contraindicada em quem tem doença vascular aneurismática, antecedentes de hemorragia intracerebral ou um evento cardiovascular nas últimas seis semanas, incluindo enfarte do miocárdio;1
- a tensão arterial, medida antes e depois de cada administração;1
- o risco de abuso ou de uso indevido, avaliado antes e vigiado durante o tratamento; com o uso prolongado de cetamina foram descritas dependência e tolerância;1
- os sintomas urinários: o uso recreativo crónico de cetamina associa-se a toxicidade da bexiga, e nos tratamentos prolongados recomenda-se vigilância;1,15,16
- a restante medicação, para identificar interações relevantes.
No dia do tratamento não se deve conduzir nem operar máquinas; só no dia seguinte, depois de uma noite de sono reparador.1 A escetamina não demonstrou prevenir o suicídio nem reduzir a ideação suicida, e não substitui o internamento quando este está indicado.1
Qual é o enquadramento em Portugal?
Em Portugal, o Infarmed aprovou em maio de 2025 o financiamento público da escetamina em spray nasal para uso hospitalar no SNS, num grupo mais restrito do que o da autorização europeia: adultos sem resposta a pelo menos três antidepressivos, incluindo estratégias de combinação ou potenciação, com psicoterapia prévia, e em quem a eletroconvulsivoterapia não resultou, está contraindicada, não está acessível ou foi recusada.17
A cetamina está autorizada como anestésico, e a sua utilização na depressão faz-se fora das indicações aprovadas («off-label»).3,18 Uso fora das indicações aprovadas significa prescrever um medicamento autorizado para uma situação que não consta do seu resumo das características. É uma decisão clínica individual, tomada com consentimento informado, e não pode ser publicitada.19
Em Portugal, o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos publicou em 2023 uma resolução sobre o uso clínico destas substâncias (CEP-2023-R-02).
Que perguntas fazer ao psiquiatra?
- Os tratamentos anteriores foram feitos em dose e durante tempo adequados?
- Que outras opções existem no meu caso, como a estimulação magnética transcraniana ou a eletroconvulsivoterapia?
- Tenho alguma condição que contraindique a escetamina?
- Onde e como decorreria o tratamento, e como regresso a casa nesse dia?
- Que efeitos devo esperar no próprio dia?
- Como se mede a resposta, e quando se decide continuar ou parar?
O que ainda não se sabe?
- O lugar exato da cetamina e da escetamina nos algoritmos de tratamento e a comparação direta com outras opções.11
- As condições ideais de administração: local, infraestrutura e equipa.11
- Os efeitos de tratamentos repetidos a longo prazo, incluindo na bexiga.15
- O contributo da psicoterapia associada, que precisa de ensaios aleatorizados de maior dimensão.12
Em resumo
- A cetamina é um anestésico autorizado; na depressão, a sua utilização é fora das indicações aprovadas.
- A escetamina em spray nasal está autorizada na UE desde 2019 para a depressão resistente, com um antidepressivo ISRS ou IRSN e sob supervisão.
- Os ensaios mostram um efeito antidepressivo rápido; a escetamina tem ensaios de fase 3 positivos.
- O tratamento exige avaliação cardiovascular, vigilância da tensão arterial e atenção ao risco de abuso e aos sintomas urinários.
- A terapia assistida por cetamina continua em investigação na depressão.
Referências
- Agência Europeia de Medicamentos. Escetamina em spray nasal: resumo das características do medicamento (secções 4.1 a 5.1). Fonte (site externo)
- Agência Europeia de Medicamentos. Escetamina em spray nasal: relatório europeu público de avaliação (EPAR, EMEA/H/C/004535); autorização de introdução no mercado válida em toda a UE desde 18 de dezembro de 2019. Fonte (site externo)
- Organização Mundial da Saúde. Electronic Essential Medicines List: ketamine (anestésico geral injetável; na lista desde 1984). Fonte (site externo)
- Agência Europeia de Medicamentos. Escetamina em spray nasal: etapas processuais após a autorização (extensão da indicação, decisão da Comissão Europeia de 4 de fevereiro de 2021). Fonte (site externo)
- Berman RM, Cappiello A, Anand A, et al. Antidepressant effects of ketamine in depressed patients. Biol Psychiatry. 2000;47(4):351–354. doi:10.1016/s0006-3223(99)00230-9 PubMed (site externo)
- Zarate CA Jr, Singh JB, Carlson PJ, et al. A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression. Arch Gen Psychiatry. 2006;63(8):856–864. doi:10.1001/archpsyc.63.8.856 PubMed (site externo)
- Popova V, Daly EJ, Trivedi M, et al. Efficacy and safety of flexibly dosed esketamine nasal spray combined with a newly initiated oral antidepressant in treatment-resistant depression: a randomized double-blind active-controlled study. Am J Psychiatry. 2019;176(6):428–438. doi:10.1176/appi.ajp.2019.19020172 PubMed (site externo)
- Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, et al. Efficacy of esketamine nasal spray plus oral antidepressant treatment for relapse prevention in patients with treatment-resistant depression: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2019;76(9):893–903. doi:10.1001/jamapsychiatry.2019.1189 PubMed (site externo)
- Reif A, Bitter I, Buyze J, et al.; ESCAPE-TRD Investigators. Ensaio aleatorizado de escetamina em spray nasal versus potenciação com um antipsicótico atípico na depressão resistente. N Engl J Med. 2023;389(14):1298–1309. doi:10.1056/NEJMoa2304145 PubMed (site externo)
- Anand A, Mathew SJ, Sanacora G, et al. Ketamine versus ECT for nonpsychotic treatment-resistant major depression. N Engl J Med. 2023;388(25):2315–2325. doi:10.1056/NEJMoa2302399 PubMed (site externo)
- McIntyre RS, Rosenblat JD, Nemeroff CB, et al. Synthesizing the evidence for ketamine and esketamine in treatment-resistant depression: an international expert opinion on the available evidence and implementation. Am J Psychiatry. 2021;178(5):383–399. doi:10.1176/appi.ajp.2020.20081251 PubMed (site externo)
- Drozdz SJ, Goel A, McGarr MW, et al. Ketamine assisted psychotherapy: a systematic narrative review of the literature. J Pain Res. 2022;15:1691–1706. doi:10.2147/JPR.S360733 PubMed (site externo)
- Dore J, Turnipseed B, Dwyer S, et al. Ketamine assisted psychotherapy (KAP): patient demographics, clinical data and outcomes in three large practices administering ketamine with psychotherapy. J Psychoactive Drugs. 2019;51(2):189–198. doi:10.1080/02791072.2019.1587556 PubMed (site externo)
- Grabski M, McAndrew A, Lawn W, et al. Adjunctive ketamine with relapse prevention-based psychological therapy in the treatment of alcohol use disorder. Am J Psychiatry. 2022;179(2):152–162. doi:10.1176/appi.ajp.2021.21030277 PubMed (site externo)
- Kerr-Gaffney J, Tröger A, Caulfield A, Ritter P, Rucker J, Young AH. Urological symptoms following ketamine treatment for psychiatric disorders: a systematic review. J Psychopharmacol. 2025;39(10):1103–1113. doi:10.1177/02698811251350267 PubMed (site externo)
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384 PMC (site externo)
- Infarmed, I.P. Relatório público de avaliação de financiamento público: escetamina (spray nasal) na depressão resistente ao tratamento. Decisão de deferimento de 7 de maio de 2025; relatório de 12 de maio de 2025. Fonte (site externo)
- Sanacora G, Frye MA, McDonald W, et al. A consensus statement on the use of ketamine in the treatment of mood disorders. JAMA Psychiatry. 2017;74(4):399–405. doi:10.1001/jamapsychiatry.2017.0080 PubMed (site externo)
- Diretiva 2001/83/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, que estabelece um código comunitário relativo aos medicamentos para uso humano, artigo 87.º, n.º 2 (a publicidade de um medicamento deve respeitar as informações do resumo das características do medicamento). Fonte (site externo)
- Zhang Y, Ye F, Zhang T, et al. Structural basis of ketamine action on human NMDA receptors. Nature. 2021;596:301–305. doi:10.1038/s41586-021-03769-9 (estrutura PDB 7EU7). Fonte (site externo)
Revisão clínica: Pedro Zuzarte, médico psiquiatra · Publicado: · Revisto: .