Depressão resistente ao tratamento
A depressão resistente ao tratamento é um episódio depressivo que não melhora o suficiente depois de pelo menos dois antidepressivos diferentes, tomados em dose e durante tempo adequados.1,2 Descreve uma etapa do percurso, e não um tipo diferente de depressão, e pede revisão do diagnóstico e um plano organizado por passos.

Uma estrada longa e direita, percorrida a pé. O caminho continua para lá do que se vê.
Vincent van Gogh, Estrada em Etten, 1881. Giz, pastel e aguarela sobre papel. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)
O que quer dizer «resistente»?
Quer dizer que os tratamentos feitos até agora não chegaram para a remissão. O critério mais usado, adotado pelas agências europeia e norte-americana do medicamento, é a ausência de resposta adequada a pelo menos dois antidepressivos, em dose e duração adequadas e com boa adesão.1 A orientação da Agência Europeia de Medicamentos para ensaios clínicos, em vigor desde setembro de 2025, usa o mesmo limiar.2
A investigação ainda procura uma definição de consenso com valor preditivo demonstrado.1,3 Na prática clínica, a resistência descreve-se por graus: quantos tratamentos foram feitos, de que tipo e com que resposta. Esse registo orienta a escolha seguinte.
Pode ser uma falsa resistência?
Pode, e é uma das primeiras hipóteses a verificar. Uma parte significativa das depressões classificadas como resistentes é pseudorresistente: o tratamento não decorreu em condições de dar resultado.1 As causas mais frequentes são:
- Dose ou duração insuficientes. Em geral, um antidepressivo precisa de 4 a 6 semanas em dose otimizada para poder ser avaliado.1
- Toma irregular. A adesão irregular é frequente; vale a pena falar dela abertamente, sem juízo.1
- Diagnóstico a rever. Na doença bipolar, a depressão pode responder mal a antidepressivos sucessivos; uma história de períodos de humor elevado muda o plano.1
- Condições associadas. O consumo de álcool ou de outras substâncias, uma perturbação de ansiedade, uma perturbação da personalidade ou doenças físicas como o hipotiroidismo podem travar a resposta e merecem tratamento próprio.1
- Avaliação imprecisa da resposta. Sem escalas e registos ao longo do tempo, uma melhoria parcial pode passar despercebida ou ser sobrestimada.1
As diretrizes britânicas recomendam, perante uma resposta insuficiente, rever o diagnóstico e considerar condições alternativas ou associadas antes de mudar de estratégia.5
O que se avalia antes de mudar o plano?
Avalia-se a história completa do episódio e de todos os tratamentos feitos. Uma reavaliação cuidadosa inclui, em regra:
- a lista dos tratamentos anteriores, com a classe, a dose máxima atingida, o tempo de toma, a resposta e os efeitos adversos;
- a história do humor ao longo da vida, incluindo períodos de energia invulgarmente elevada, e a história familiar;
- o sono, o consumo de álcool e de outras substâncias, a ansiedade e os acontecimentos de vida que mantêm os sintomas;
- a saúde física e a restante medicação, com análises quando indicado, por exemplo da função da tiroide;
- o risco de suicídio, revisto em cada consulta;
- escalas de sintomas repetidas, para medir a resposta sempre com o mesmo critério.
Com esta informação, as opções seguintes discutem-se em conjunto: o que cada uma pode trazer, os seus riscos e o que exige em tempo e deslocações.
Que opções existem, e por que ordem?
As opções organizam-se por passos. As diretrizes canadianas de 2023 e as britânicas de 2022 seguem uma sequência semelhante:4,5
- Otimizar. Ajustar a dose do antidepressivo atual e dar-lhe tempo é o primeiro passo.4
- Mudar. Passar para um antidepressivo de outra classe ou com outro mecanismo de ação.4
- Associar. Acrescentar um segundo medicamento, como um antidepressivo de outra classe, um antipsicótico de segunda geração ou um estabilizador do humor, por decisão partilhada.4,5
- Psicoterapia. Associada à medicação, a psicoterapia estruturada acrescenta benefício na depressão resistente.1
- Neuromodulação. A estimulação magnética transcraniana (EMT) e a eletroconvulsivoterapia (ECT) entram, em geral, depois de mudanças e associações de medicamentos sem resposta suficiente.4
- Escetamina em spray nasal. Autorizada na União Europeia para a depressão resistente, em associação com um antidepressivo e sob supervisão clínica.10
- Cetamina. Estudada na depressão resistente em ensaios aleatorizados; nesta indicação, o seu uso é fora das indicações aprovadas.9
- Psicadélicos. A psilocibina com apoio psicológico está em investigação.12
A ordem é orientativa. A gravidade, a urgência, as preferências da pessoa, a resposta anterior e o acesso a cada tratamento podem justificar outra sequência; a ECT, por exemplo, considera-se mais cedo quando é necessária uma resposta rápida.5 No grande estudo STAR*D, quanto mais passos foram necessários, menor foi a probabilidade de remissão e maior o risco de recaída: um plano organizado desde o início evita perder tempo.6
A cetamina e a escetamina têm uma página própria: Cetamina e escetamina na depressão resistente. A investigação com psicadélicos está resumida em Psicadélicos na depressão.
Como funcionam a EMT e a ECT?
A estimulação magnética transcraniana repetitiva estimula o córtex cerebral com campos magnéticos aplicados à superfície da cabeça, em sessões repetidas. Não exige anestesia nem tem efeitos adversos cognitivos, e a resposta varia de pessoa para pessoa.4,13 Em meta-análises, várias modalidades foram mais eficazes do que a estimulação simulada.8
A eletroconvulsivoterapia faz-se sob anestesia geral e relaxamento muscular, em sessões repetidas. É uma das opções mais eficazes na depressão resistente e na depressão grave e pode causar alterações transitórias da memória.4,7,9 Num ensaio aleatorizado de 2023, em depressão resistente sem psicose, a cetamina por via intravenosa foi não inferior à ECT.9
Onde se situa cada opção?
A tabela resume o estado da evidência na depressão resistente, para distinguir o que é prática estabelecida do que ainda está em investigação.
| Abordagem | Onde foi estudada | Evidência | Fase |
|---|---|---|---|
| Otimizar, mudar ou associar medicamentos | Depressão major e depressão resistente | Diretrizes clínicas; evidência mista para algumas estratégias de mudança e combinação1,4 | Aprovado · disponível |
| Psicoterapia associada à medicação | Depressão resistente | Benefício quando acrescentada aos antidepressivos1 | Prática clínica estabelecida |
| Estimulação magnética transcraniana (EMT) | Depressão major e depressão resistente | Meta-análises de ensaios controlados com estimulação simulada8,13 | Aprovado · disponível |
| Eletroconvulsivoterapia (ECT) | Depressão grave e depressão resistente | Meta-análise de ensaios aleatorizados; uma das opções mais eficazes4,7 | Aprovado · disponível |
| Escetamina em spray nasal, com antidepressivo ISRS ou IRSN | Depressão resistente | Ensaios de fase 3 positivos14 | Aprovado na UE (2019) · financiado em hospitais do SNS (2025) |
| Cetamina por via intravenosa | Depressão resistente | Ensaios aleatorizados positivos; não inferior à ECT num ensaio de 20239 | Estudado · fora das indicações aprovadas |
| Psilocibina com apoio psicológico | Depressão resistente | Ensaio de fase 2 positivo; ensaios de fase 3 comunicados pela empresa12 | Em investigação · submissão regulamentar nos EUA em curso |
Qual é o enquadramento em Portugal e na UE?
A escetamina em spray nasal tem autorização de introdução no mercado válida em toda a União Europeia desde 18 de dezembro de 2019, para adultos com depressão resistente, em associação com um antidepressivo ISRS ou IRSN.10 Em Portugal, o Infarmed aprovou em maio de 2025 o financiamento público para uso hospitalar no SNS, num grupo de doentes mais restrito do que o da autorização europeia.11
A cetamina está autorizada como anestésico, e a sua utilização na depressão faz-se fora das indicações aprovadas («off-label»). Uso fora das indicações aprovadas significa prescrever um medicamento autorizado para uma situação que não consta do seu resumo das características. É uma decisão clínica individual, tomada com consentimento informado, e não pode ser publicitada.15
A psilocibina não tem autorização de introdução no mercado na União Europeia; em Portugal, o seu uso clínico limita-se a ensaios clínicos.16
O que ainda não se sabe?
- Qual a melhor sequência para cada pessoa: a evidência sobre prolongar, mudar ou combinar antidepressivos é mista.1
- Como reconhecer de antemão quem vai responder a cada opção: falta uma definição de resistência com valor preditivo demonstrado.1
- O lugar da cetamina e da escetamina nos algoritmos e a sua comparação direta com outras opções.17
- A eficácia e a segurança da psilocibina a longo prazo, que pedem ensaios maiores e mais longos.12
Que perguntas fazer ao psiquiatra?
- O diagnóstico foi revisto, incluindo a possibilidade de doença bipolar?
- Os tratamentos anteriores foram feitos em dose e durante tempo suficientes?
- Há alguma condição associada, física ou psíquica, que esteja a travar a resposta?
- Qual é o próximo passo, e porquê este antes dos outros?
- Como vamos medir a resposta, e quando reavaliamos?
- No meu caso, faz sentido considerar a EMT, a ECT ou a escetamina?
Em resumo
- A depressão resistente define-se, em geral, pela ausência de resposta a pelo menos dois antidepressivos adequados no episódio atual.
- Antes de mudar de estratégia, exclui-se a pseudorresistência: dose, duração, adesão, diagnóstico e condições associadas.
- As opções organizam-se por passos: otimizar, mudar, associar, acrescentar psicoterapia e, depois, neuromodulação.
- A escetamina em spray nasal está autorizada na UE para a depressão resistente; a cetamina é estudada fora das indicações aprovadas; a psilocibina está em investigação.
- A escolha é individual, decide-se em conjunto e acompanha-se com medições regulares da resposta.
Referências
- McIntyre RS, Alsuwaidan M, Baune BT, et al. Treatment-resistant depression: definition, prevalence, detection, management, and investigational interventions. World Psychiatry. 2023;22(3):394–412. doi:10.1002/wps.21120 PubMed (site externo)
- European Medicines Agency, CHMP. Guideline on clinical investigation of medicinal products in the treatment of depression (EMA/CHMP/185423/2010 Rev. 3). Em vigor desde 30 de setembro de 2025. Fonte (site externo)
- Gaynes BN, Lux L, Gartlehner G, et al. Defining treatment-resistant depression. Depress Anxiety. 2020;37(2):134–145. doi:10.1002/da.22968 PubMed (site externo)
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- Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(11):1905–1917. doi:10.1176/ajp.2006.163.11.1905 PubMed (site externo)
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- Infarmed, I.P. Relatório público de avaliação de financiamento público: escetamina (spray nasal) na depressão resistente ao tratamento. Decisão de deferimento de 7 de maio de 2025; relatório de 12 de maio de 2025. Fonte (site externo)
- Goodwin GM, Aaronson ST, Alvarez O, et al. Single-dose psilocybin for a treatment-resistant episode of major depression. N Engl J Med. 2022;387(18):1637–1648. doi:10.1056/NEJMoa2206443 PubMed (site externo)
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- Agência Europeia de Medicamentos, registo de medicamentos (consultado a 10 de outubro de 2026): sem autorização de introdução no mercado para psilocibina, MDMA, LSD ou DMT; Agência Europeia de Medicamentos, relatório do workshop sobre psicadélicos (2024). Fonte (site externo)
- McIntyre RS, Rosenblat JD, Nemeroff CB, et al. Synthesizing the evidence for ketamine and esketamine in treatment-resistant depression: an international expert opinion on the available evidence and implementation. Am J Psychiatry. 2021;178(5):383–399. doi:10.1176/appi.ajp.2020.20081251 PubMed (site externo)
Revisão clínica: Pedro Zuzarte, médico psiquiatra · Publicado: · Revisto: .