Parar antidepressivos: como fazer o desmame com segurança
Parar antidepressivos é possível e a maioria das pessoas consegue fazê-lo, desde que a redução seja gradual e combinada com o médico.1 O ritmo é individual, e saber distinguir os sintomas de descontinuação de uma recaída ajuda a decidir cada passo.1,2

Uma estrada percorrida a passo, sem pressa de chegar.
Alfred Sisley, A estrada de Versalhes para Louveciennes, provavelmente 1879. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)
Em resumo
Parar antidepressivos deve ser uma decisão partilhada com o médico, habitualmente pelo menos seis meses depois de os sintomas terem desaparecido. A redução é feita por etapas, a um ritmo individual, porque a interrupção brusca aumenta o risco de sintomas de descontinuação. Os sintomas de descontinuação distinguem-se de uma recaída e são, em geral, ligeiros e passageiros. Pedro Zuzarte, psiquiatra em Lisboa, acompanha este processo em consulta.
Quando se pode pensar em parar?
Quando a depressão está em remissão e já passou o tempo de tratamento recomendado. Habitualmente, os antidepressivos mantêm-se pelo menos seis meses depois de os sintomas terem desaparecido, com revisão regular pelo médico; em doença grave ou recorrente pode justificar-se um tratamento mais longo.1,2 Outras razões legítimas para ponderar parar são os efeitos secundários, a falta de eficácia ou simplesmente a vontade de deixar a medicação.2
A decisão é partilhada. Pesa-se o benefício de continuar, que reduz o risco de recaída, contra os riscos do uso prolongado, como efeitos secundários persistentes ou a dificuldade em parar.1 O risco de recaída é maior em quem teve episódios repetidos, sobretudo nos últimos dois anos, resposta incompleta ou sintomas residuais, depressão grave, outros problemas de saúde física ou mental, ou fatores de stress que se mantêm.1 A página Depressão resume o tratamento como um todo. Quando a depressão não responde a vários antidepressivos, as opções seguintes, como a terapia com cetamina (ketamina) e escetamina, estão descritas em depressão resistente ao tratamento.
Porque não se deve parar de repente?
Porque a interrupção brusca, as doses esquecidas ou as doses incompletas podem provocar sintomas de descontinuação, também chamados sintomas de privação.1 Com o tempo, o cérebro e o corpo adaptam-se à presença do medicamento; quando este é retirado depressa, precisam de tempo para se reajustarem.2 Parar de repente também pode aumentar a probabilidade de voltar a ficar doente.2
Os sintomas mais descritos são:1
- tonturas, vertigem ou desequilíbrio;
- sensações alteradas, como pequenos «choques elétricos»;
- irritabilidade, ansiedade, humor em baixo, choro fácil ou ataques de pânico;
- inquietação ou agitação e dificuldades em dormir;
- suores, náuseas, palpitações, cansaço, dores de cabeça e dores musculares ou articulares.
Muito raramente, podem surgir pensamentos suicidas; nesse caso, é preciso contactar o médico de imediato.1,2
Ter sintomas ao parar não significa adição. Não há desejo intenso de consumir nem procura de efeito agradável; trata-se de dependência física, uma adaptação do organismo ao medicamento.2
Com que frequência surgem e quanto duram?
As estimativas variam com o método dos estudos. Uma meta-análise de 2024, com 79 estudos e mais de 21 000 pessoas, encontrou pelo menos um sintoma de descontinuação em 31% das pessoas que pararam um antidepressivo e em 17% das que pararam um placebo. Descontando estes efeitos inespecíficos, os autores estimam que cerca de 15% das pessoas, uma em seis ou sete, têm sintomas atribuíveis ao antidepressivo; os sintomas graves ocorreram em cerca de 3%.5 Os resultados variaram muito entre estudos, e os autores lembram que parte dos sintomas pode refletir o regresso da própria doença.5
Uma revisão sistemática de 2019, com estudos de metodologias muito diversas, encontrou valores mais altos, entre 27% e 86%, com uma média ponderada de 56%, e concluiu que uma parte das pessoas tem sintomas durante mais de duas semanas.4 O Royal College of Psychiatrists indica que entre um terço e metade das pessoas que tomam um antidepressivo terão estes sintomas em algum grau.2
Quanto à duração, os sintomas são muitas vezes ligeiros, surgem nos primeiros dias após reduzir ou parar e desaparecem em geral em uma a duas semanas; por vezes duram mais tempo, algumas semanas e, ocasionalmente, vários meses, e podem ser intensos, sobretudo se a paragem for brusca.1
Como distinguir sintomas de descontinuação de uma recaída?
Há três pistas úteis, que o médico ajuda a interpretar:1,2
- Quando começam. Os sintomas de descontinuação surgem habitualmente poucos dias depois de reduzir ou parar, por vezes logo após uma dose esquecida. Uma recaída costuma surgir mais tarde, ao fim de semanas ou meses. Com medicamentos de eliminação lenta, como a fluoxetina, os sintomas podem começar mais tarde, o que torna a distinção mais difícil.
- Que tipo de sintomas. Tonturas, «choques elétricos» ou sensações nunca sentidas antes apontam para descontinuação. Muitas pessoas descrevem: «isto não se parece com a minha depressão».
- Como respondem ao retomar a dose. Os sintomas de descontinuação melhoram em dias, ou mesmo horas, ao retomar o antidepressivo; a melhoria de uma recaída demora semanas.
Os sintomas de descontinuação são frequentes e não significam que a depressão voltou.1 Durante a redução, o médico vigia ambas as possibilidades.1
Como se faz o desmame?
Por etapas, a um ritmo combinado com o médico e conduzido pela própria pessoa.1 As orientações do NICE recomendam:1
- reduzir a dose de forma gradual até zero, em vários passos;
- fazer reduções mais pequenas à medida que a dose fica mais baixa, ou seja, avançar mais devagar perto do fim;
- só avançar para o passo seguinte quando os sintomas do passo anterior tiverem desaparecido ou forem toleráveis;
- ter em conta o medicamento, a duração do tratamento e a eliminação mais ou menos rápida do organismo;
- aceitar que o processo pode levar semanas ou meses.
Não existe um plano igual para todos. Quem tomou o antidepressivo durante pouco tempo pode precisar de poucos passos; quem o tomou durante meses ou anos, ou já teve sintomas ao tentar parar, beneficia em geral de uma redução mais lenta.2 Uma análise publicada em 2019 propôs, com base em imagiologia cerebral, reduções progressivamente menores e mais lentas do que as habitualmente usadas.3 Saltar doses em dias alternados não é uma boa forma de reduzir, porque faz oscilar a quantidade de medicamento no organismo.2
O esquema concreto, as formulações e os intervalos entre passos são definidos em consulta; esta página não substitui essa orientação.
Quem tem mais dificuldade em parar?
Ainda não é possível prever quem terá sintomas mais intensos, mas alguns fatores aumentam o risco:1,2,5
- parar de repente ou reduzir depressa;
- tratamento longo, sobretudo com doses elevadas;
- medicamentos de eliminação rápida; a paroxetina e a venlafaxina associam-se com mais frequência a estes sintomas;
- sintomas de descontinuação em tentativas anteriores.
Mesmo assim, ter tido sintomas numa tentativa anterior não impede parar: em geral, significa que a redução deve ser mais lenta.2
O que fazer se surgirem sintomas?
Depende da intensidade:1
- Sintomas ligeiros: são frequentes e costumam passar; vigiam-se, e convém contactar o médico se não melhorarem ou piorarem.
- Sintomas mais intensos: o médico pode propor retomar a dose anterior e, depois de os sintomas desaparecerem, recomeçar a redução de forma mais lenta e com passos mais pequenos.
Mesmo depois de retomar a dose, os sintomas podem levar alguns dias a desaparecer.1 Não é aconselhável alterar a dose por iniciativa própria sem falar com quem prescreveu. Pensamentos de suicídio durante a redução, sejam sintoma de descontinuação ou sinal de recaída, exigem contacto imediato com o médico ou com os serviços de urgência.2
Como reduzir o risco de recaída?
Continuar o antidepressivo depois da remissão reduz o risco de recaída. Numa revisão de 31 ensaios, recaíram 41% das pessoas que passaram para placebo e 18% das que mantiveram o antidepressivo.6 Num ensaio de 2021 nos cuidados de saúde primários, com pessoas que se sentiam bem e tinham tido vários episódios ou tratamento prolongado, a recaída num ano foi de 56% com a suspensão e de 39% com a manutenção.7 Estes números não tornam a manutenção obrigatória; ajudam a decidir, caso a caso.
Para quem decide parar e tem maior risco de recaída, o NICE propõe como alternativa a terapia cognitivo-comportamental em grupo ou a terapia cognitiva baseada em mindfulness, focadas na prevenção de recaídas.1 Ajuda também ter um plano com os sinais de alerta pessoais, como ansiedade ou sono pior, as situações de stress previsíveis e o que fazer se surgirem, e pedir ajuda cedo se os sintomas voltarem ou se os sintomas residuais piorarem.1 Quem decide não manter a medicação deve receber orientação sobre como parar, em vez de interromper por conta própria.1
A avaliação e o acompanhamento são feitos em consulta de psiquiatria, presencial em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
Perguntas frequentes
Posso parar o antidepressivo quando me sentir melhor?
Sentir-se melhor é o objetivo, mas não é sinal para parar logo. Habitualmente, recomenda-se manter o antidepressivo pelo menos seis meses depois de os sintomas terem desaparecido, com revisão regular, e mais tempo em depressão grave ou recorrente. Quando chegar a altura, a decisão e o plano de redução devem ser combinados com o médico, porque parar de repente aumenta o risco de sintomas de descontinuação e de recaída.
Os sintomas de descontinuação significam que estou viciado?
Não. A adição envolve desejo intenso de consumir, perda de controlo e procura de um efeito agradável, o que não acontece com os antidepressivos. Os sintomas ao parar resultam de dependência física: o organismo adaptou-se ao medicamento e precisa de tempo para se reajustar. Por isso a redução é feita de forma gradual, a um ritmo que a pessoa tolere.
Quanto tempo demora o desmame?
Varia de pessoa para pessoa. Quem tomou o antidepressivo durante pouco tempo pode parar em poucas semanas; após tratamentos de meses ou anos, ou se houve sintomas em tentativas anteriores, o processo pode durar vários meses. As orientações do NICE reconhecem que o desmame pode levar semanas ou meses e recomendam que cada passo só avance quando os sintomas do anterior forem toleráveis.
Como sei se é descontinuação ou se a depressão voltou?
Os sintomas de descontinuação surgem em geral poucos dias depois de reduzir, incluem muitas vezes sensações novas, como tonturas ou «choques elétricos», e melhoram em dias, ou horas, ao retomar a dose. Uma recaída costuma surgir ao fim de semanas ou meses e parece-se com os episódios anteriores. Se tiver dúvidas, fale com o médico antes de alterar a dose.
É comum ter sintomas ao parar um antidepressivo?
As estimativas variam com o método. Uma meta-análise de 2024 encontrou sintomas em 31% das pessoas que pararam um antidepressivo e em 17% das que pararam um placebo, o que sugere cerca de uma em seis ou sete pessoas com sintomas atribuíveis ao medicamento; os graves rondaram os 3%. Outras revisões e o Royal College of Psychiatrists indicam valores mais altos.
Pontos-chave
- Parar antidepressivos é habitualmente ponderado depois de pelo menos seis meses de remissão, numa decisão partilhada que pesa o risco de recaída e os efeitos do uso prolongado.
- A redução faz-se por etapas, a um ritmo individual e muitas vezes mais lento perto do fim; os sintomas de descontinuação distinguem-se de uma recaída pelo momento em que surgem, pelo tipo de sintomas e pela resposta ao retomar a dose.
Leituras relacionadas
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management (NG222). 2022. Recomendações 1.4.11 a 1.4.21 (parar a medicação antidepressiva) e 1.8 (prevenção de recaída). Fonte (site externo)
- Royal College of Psychiatrists. Stopping antidepressants. Informação para o público, publicada em março de 2024. Fonte (site externo)
- Horowitz MA, Taylor D. Tapering of SSRI treatment to mitigate withdrawal symptoms. Lancet Psychiatry. 2019;6(6):538–546. doi:10.1016/S2215-0366(19)30032-X PubMed (site externo)
- Davies J, Read J. A systematic review into the incidence, severity and duration of antidepressant withdrawal effects: are guidelines evidence-based? Addict Behav. 2019;97:111–121. doi:10.1016/j.addbeh.2018.08.027 PubMed (site externo)
- Henssler J, Schmidt Y, Schmidt U, Schwarzer G, Bschor T, Baethge C. Incidence of antidepressant discontinuation symptoms: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2024;11(7):526–535. doi:10.1016/S2215-0366(24)00133-0 PubMed (site externo)
- Geddes JR, Carney SM, Davies C, et al. Relapse prevention with antidepressant drug treatment in depressive disorders: a systematic review. Lancet. 2003;361(9358):653–661. doi:10.1016/S0140-6736(03)12599-8 PubMed (site externo)
- Lewis G, Marston L, Duffy L, et al. Maintenance or discontinuation of antidepressants in primary care. N Engl J Med. 2021;385(14):1257–1267. doi:10.1056/NEJMoa2106356 PubMed (site externo)
Uma avaliação psiquiátrica pode ser o primeiro passo.