Ansiedade social
A ansiedade social, também chamada fobia social, é um medo intenso e persistente de ser observado e avaliado negativamente pelos outros. Não é apenas timidez: condiciona o trabalho, os estudos e as relações, e tem tratamento eficaz.1,3

Um estrado iluminado diante de uma plateia: o olhar dos outros, que na ansiedade social se torna difícil de suportar.
Georges Seurat, Parada de circo (Parade de cirque), 1887–88. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)
Em resumo
A ansiedade social (fobia social) é um medo intenso e persistente de ser observado e avaliado negativamente, que leva a evitar situações sociais ou a suportá-las com grande sofrimento. Não é apenas timidez e tem tratamento eficaz. A terapia cognitivo-comportamental individual é a primeira opção recomendada nos adultos. Pedro Zuzarte, psiquiatra em Lisboa, faz a avaliação em consulta presencial ou por teleconsulta.
O que é a ansiedade social?
É uma perturbação de ansiedade em que o medo central é o de ser observado, julgado ou humilhado pelos outros. As situações sociais temidas provocam quase sempre ansiedade, são evitadas ou suportadas com grande sofrimento, e o medo é desproporcionado em relação ao risco real. Para se falar de perturbação, este padrão mantém-se, em regra, durante seis meses ou mais e causa sofrimento ou limitação importantes.2
A diferença em relação à timidez não está no tipo de sentimento, mas na intensidade, na persistência e no impacto. A investigação deixou há muito de a encarar como simples timidez: é uma das perturbações de ansiedade mais frequentes, com início precoce e tendência para se prolongar.3 Nos EUA, estima-se que cerca de 13% das pessoas a tenham ao longo da vida.5
Em algumas pessoas o medo limita-se a situações de desempenho, como falar ou atuar em público; o DSM-5-TR distingue esta forma com um especificador próprio.2 A ansiedade social faz parte do grupo das perturbações de ansiedade descritas na página Ansiedade.
Quais são os sintomas?
Os sintomas surgem antes, durante e depois das situações temidas. As situações temidas incluem conversar ou conhecer pessoas novas, ser observado, por exemplo a comer ou a beber, fazer ou responder a perguntas, e falar ou atuar diante de outros.1,2
- Medos característicos: parecer ansioso, corar, transpirar, tremer, ficar sem palavras ou parecer aborrecido, e que os outros reparem nisso.1
- Sinais físicos: rubor, transpiração e tremor, e outros sinais de ansiedade, como palpitações ou falta de ar.1,5
- Atenção virada para si próprio: durante a interação, a pessoa vigia-se a si mesma e forma uma imagem negativa de como está a parecer.1
- Comportamentos de segurança: estratégias para «não se notar», como evitar o olhar, ensaiar frases ou ficar num canto, que aliviam no momento mas mantêm o medo.1
- Antecipação e revisão: preocupação nos dias que antecedem a situação e, depois dela, repetição mental do que correu mal.1
- Evitamento: recusar convites, faltar a aulas ou reuniões, escolher trabalhos com menos contacto.
Quando as crises são súbitas e surgem também fora das situações sociais, é importante pensar em ataques de pânico; quando a preocupação se estende a muitos temas do dia a dia, em ansiedade generalizada.
Como afeta a vida diária?
Começa muitas vezes cedo: em cerca de metade das pessoas surge até aos 11 anos e, em cerca de 80%, até aos 20.3 Sem tratamento, tende a ser crónica e raramente desaparece por si.4
O impacto vê-se nas escolhas de estudo e de carreira, na progressão profissional, nas amizades e nas relações amorosas. A ansiedade social é também um fator de risco para depressão e para o consumo problemático de substâncias.3 O álcool ou outras drogas são frequentemente uma tentativa de aliviar a ansiedade em situações sociais, e isso não deve impedir o tratamento da ansiedade.1
Muitas pessoas não sabem que se trata de uma perturbação reconhecida e tratável, e vivem-na como um defeito pessoal; o próprio medo de falar com desconhecidos pode atrasar o pedido de ajuda.1 As perturbações de ansiedade, no seu conjunto, continuam a ser pouco diagnosticadas e pouco tratadas.6
Quando procurar ajuda?
Vale a pena procurar avaliação quando:
- o medo leva a evitar situações importantes, como aulas, entrevistas, reuniões ou encontros;
- a ansiedade antes ou depois das situações sociais ocupa muito tempo e energia;
- se recorre ao álcool, a calmantes ou a outras substâncias para conseguir estar com outras pessoas;
- surgem tristeza persistente, perda de interesse ou desesperança, que podem indicar depressão;
- a ansiedade limita escolhas de estudo, de trabalho ou de vida pessoal.
Não é preciso esperar que a situação se torne grave: quanto mais tempo dura o evitamento, mais oportunidades se perdem.
Como é feita a avaliação?
A avaliação considera o medo, o evitamento, o sofrimento e o impacto no dia a dia. Inclui uma descrição detalhada das situações temidas e evitadas, do que a pessoa receia que aconteça, da imagem que tem de si nessas situações, dos comportamentos de segurança, da preocupação antes e depois, e do consumo de medicamentos, álcool e outras substâncias.1
Procuram-se também outras condições que acompanham com frequência a ansiedade social ou que podem parecer-se com ela: depressão e outras perturbações do humor, outras perturbações de ansiedade, consumo de álcool e substâncias, perturbação da personalidade evitante, psicose e perturbações do espetro do autismo.1 Questionários validados podem ajudar a medir a intensidade e, mais tarde, a evolução.1
Para algumas pessoas, o primeiro contacto presencial é, em si, difícil; nesses casos, as diretrizes admitem começar por telefone ou pela internet.1 A consulta de psiquiatria pode decorrer presencialmente em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.
Qual é o tratamento com melhor evidência?
Nos adultos, o tratamento recomendado em primeiro lugar é a terapia cognitivo-comportamental (TCC) individual, desenvolvida especificamente para a ansiedade social.1 Numa grande meta-análise em rede, a TCC individual teve os efeitos mais consistentes e foi considerada a melhor intervenção inicial.4 Inclui, consoante o modelo:1
- informação sobre a ansiedade social e sobre o que a mantém;
- exercícios que mostram o efeito da atenção virada para si e dos comportamentos de segurança, e treino da atenção dirigida para fora;
- experiências comportamentais para testar previsões negativas e exposição gradual às situações temidas;
- trabalho sobre a preocupação antes e depois das situações e sobre as crenças de base;
- prevenção de recaídas.
A TCC em grupo também é eficaz, mas a individual tem melhores resultados.1,4 Para quem prefere outra forma de intervenção psicológica, a autoajuda baseada na TCC, com apoio de um profissional, é uma alternativa.1
Medicação. Para quem prefere tratamento farmacológico, a primeira opção é um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS).1,5 Se não houver resposta, ou se os efeitos adversos não forem tolerados, pode mudar-se para outro ISRS ou para um inibidor da recaptação da serotonina e da noradrenalina (IRSN); numa fase seguinte, as diretrizes britânicas admitem um inibidor da monoamina oxidase, que exige restrições alimentares e cuidados com outros medicamentos.1 No início pode haver um aumento transitório da ansiedade, agitação ou alterações do sono. O tratamento mantém-se depois da melhoria para prevenir recaídas, e a suspensão é sempre gradual e combinada com o médico.1
Quando a resposta a um dos tratamentos é apenas parcial, pode associar-se o outro: medicação a quem fez TCC, ou TCC a quem toma medicação.1 As diretrizes não recomendam, como tratamento de rotina, anticonvulsivantes, antidepressivos tricíclicos, benzodiazepinas ou antipsicóticos.1 Nas crianças e nos adolescentes, o tratamento é a TCC centrada na ansiedade social, e a medicação não é oferecida por rotina.1
Para quem recusa a TCC e a medicação, pode considerar-se uma psicoterapia psicodinâmica breve desenhada para a ansiedade social, com eficácia mais limitada.1,4 A diferença entre os profissionais que intervêm está descrita em Psiquiatra ou psicólogo.
Que ideias erradas atrasam a ajuda?
- «É só timidez.» A ansiedade social distingue-se pela intensidade, pela persistência e pelo impacto, e é uma perturbação reconhecida.2,3
- «Com o tempo passa.» Sem tratamento, tende a manter-se durante anos.4
- «Um copo ajuda a descontrair.» O alívio é momentâneo, e a ansiedade social é um fator de risco para o consumo problemático de álcool e de outras substâncias.1,3
- «Basta forçar-me.» Enfrentar as situações ajuda quando é planeado, gradual e sem os comportamentos de segurança que mantêm o medo; é isso que se treina na TCC.1
- «É um defeito meu.» É uma perturbação com tratamento eficaz, e não uma falha de carácter.1
As diretrizes britânicas não recomendam, como tratamento de rotina, intervenções baseadas em mindfulness ou terapia de apoio, nem hipericão ou outros produtos de venda livre para a ansiedade, nem toxina botulínica para a transpiração excessiva.1 O passo mais útil é, quase sempre, falar com um profissional e começar um tratamento com evidência.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre timidez e ansiedade social?
A timidez é um traço comum e, em regra, não impede a pessoa de fazer o que precisa. Na ansiedade social, o medo de ser observado e avaliado negativamente é intenso, desproporcionado e persistente, leva a evitar situações ou a suportá-las com grande sofrimento e limita o trabalho, os estudos ou as relações. É uma perturbação reconhecida, com diagnóstico e tratamento próprios.
A ansiedade social pode ser tratada?
Sim. A terapia cognitivo-comportamental individual, desenvolvida especificamente para a ansiedade social, é o tratamento inicial recomendado e mostrou efeitos grandes em ensaios clínicos. Para quem não quer ou não pode fazer psicoterapia, alguns antidepressivos são uma alternativa com evidência. Nem todas as pessoas respondem ao primeiro tratamento, mas existem alternativas e combinações que podem ser ponderadas em consulta.
Preciso de tomar medicação?
Nem sempre. Nos adultos, as diretrizes recomendam começar pela terapia cognitivo-comportamental individual. A medicação, sobretudo um antidepressivo da classe dos ISRS, é uma opção quando a pessoa a prefere, quando a psicoterapia não está acessível ou quando a resposta à terapia é apenas parcial. Nas crianças e nos adolescentes, a medicação não é oferecida por rotina. A decisão é tomada em conjunto, depois da avaliação.
Posso fazer a primeira consulta por teleconsulta?
Pode. As diretrizes britânicas reconhecem que, para algumas pessoas com ansiedade social, comparecer a uma primeira consulta presencial é difícil, e admitem que o primeiro contacto seja feito por telefone ou pela internet. A consulta de psiquiatria pode decorrer presencialmente em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol, e o formato pode ser revisto ao longo do acompanhamento.
A ansiedade social pode começar na infância?
Sim, começa muitas vezes cedo: em cerca de metade das pessoas surge até aos 11 anos e na grande maioria até aos 20. Nas crianças pode manifestar-se por evitar a escola ou as atividades de grupo, falar pouco em situações sociais, irritabilidade ou dependência excessiva dos pais. O tratamento recomendado é a terapia cognitivo-comportamental centrada na ansiedade social, envolvendo os pais quando a criança é pequena.
Pontos-chave
- A ansiedade social é um medo intenso e persistente de ser avaliado negativamente pelos outros, que leva ao evitamento e limita a vida pessoal e profissional; não é apenas timidez.
- A terapia cognitivo-comportamental individual, específica para a ansiedade social, é o primeiro tratamento recomendado nos adultos; os antidepressivos ISRS são a principal alternativa farmacológica.
- A avaliação procura depressão, consumo de álcool e outras perturbações associadas, e pode começar por teleconsulta.
Leituras relacionadas
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment (CG159). 2013. Fonte (site externo)
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª edição, texto revisto (DSM-5-TR). 2022. Fonte (site externo)
- Stein MB, Stein DJ. Social anxiety disorder. Lancet. 2008;371(9618):1115–1125. doi:10.1016/S0140-6736(08)60488-2 PubMed (site externo)
- Mayo-Wilson E, Dias S, Mavranezouli I, et al. Psychological and pharmacological interventions for social anxiety disorder in adults: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2014;1(5):368–376. doi:10.1016/S2215-0366(14)70329-3 PubMed (site externo)
- Szuhany KL, Simon NM. Anxiety disorders: a review. JAMA. 2022;328(24):2431–2445. doi:10.1001/jama.2022.22744 PubMed (site externo)
- Bandelow B, Michaelis S. Epidemiology of anxiety disorders in the 21st century. Dialogues Clin Neurosci. 2015;17(3):327–335. doi:10.31887/DCNS.2015.17.3/bbandelow PubMed (site externo)
Uma avaliação psiquiátrica pode ser o primeiro passo.