Ansiedade generalizada

A perturbação de ansiedade generalizada é uma preocupação excessiva, persistente e difícil de controlar sobre vários temas do dia a dia, acompanhada de sintomas físicos como tensão muscular, cansaço e sono perturbado. É frequente e tem tratamento com eficácia demonstrada.1,2,3

Pintura de Jacob van Ruisdael: grandes nuvens claras e escuras ocupam a maior parte do céu sobre campos de trigo maduro, atravessados por um caminho de terra onde caminham algumas pessoas, com um arvoredo ao fundo

Nuvens que se acumulam sobre os campos sem que a chuva chegue, como a preocupação que antecipa o que pode não acontecer.

Jacob van Ruisdael, Campos de trigo, c. 1670. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)

Em resumo

A perturbação de ansiedade generalizada é uma preocupação excessiva e difícil de controlar sobre vários temas, presente na maior parte dos dias durante pelo menos seis meses, com tensão muscular, cansaço e sono perturbado. É frequente e tratável. A terapia cognitivo-comportamental, o relaxamento aplicado e alguns antidepressivos têm boa evidência. Pedro Zuzarte, psiquiatra em Lisboa, faz a avaliação em consulta.

O que é a perturbação de ansiedade generalizada?

É uma perturbação de ansiedade em que a preocupação se torna excessiva, difícil de controlar e se estende a vários temas, como a saúde, o trabalho, a família ou o dinheiro. Para o diagnóstico, a preocupação está presente na maior parte dos dias durante pelo menos seis meses, acompanha-se de sintomas físicos e psicológicos e causa sofrimento ou limita a vida diária.2

A preocupação é muitas vezes difusa e não depende de um acontecimento recente, embora certas situações a agravem.3 É uma perturbação comum: nos EUA, estima-se que cerca de 6% das pessoas a tenham ao longo da vida, e é cerca de duas vezes mais frequente nas mulheres.3,5 Continua, ainda assim, a ser pouco diagnosticada e pouco tratada.4

As outras formas de ansiedade, como os ataques de pânico e a ansiedade social, estão resumidas na página Ansiedade.

Quais são os sintomas físicos e psicológicos?

Além da preocupação, o DSM-5-TR exige, nos adultos, pelo menos três de seis sintomas, presentes na maior parte dos dias:2

  • inquietação ou sensação de estar «com os nervos à flor da pele»;
  • cansaço fácil;
  • dificuldade de concentração ou «mente em branco»;
  • irritabilidade;
  • tensão muscular;
  • perturbações do sono, como dificuldade em adormecer ou sono agitado e pouco reparador.

São também frequentes palpitações, boca seca e transpiração; estes sintomas fazem parte do quadro de ansiedade e não são queixas independentes.3 Muitas pessoas procuram primeiro o médico de família por queixas físicas, por uma doença crónica ou pela necessidade de serem tranquilizadas sobre a saúde, e a ansiedade generalizada pode passar despercebida.1

Em que difere da preocupação normal?

A preocupação é uma parte normal da vida e pode ajudar a resolver problemas. Na ansiedade generalizada, muda em quatro aspetos:2

  • Proporção: é excessiva em relação à probabilidade ou ao impacto real do que se teme.
  • Controlo: é difícil de interromper, mesmo quando a pessoa reconhece que é exagerada.
  • Extensão e duração: passa de um tema para outro e mantém-se na maior parte dos dias durante meses.
  • Impacto: acompanha-se de sintomas físicos e interfere com o trabalho, as relações ou o descanso.

Uma preocupação intensa mas limitada a um problema concreto e recente, que diminui quando o problema se resolve, não corresponde, em regra, a esta perturbação.

Porque surge?

Não há uma causa única. A ansiedade generalizada é mais frequente em familiares de pessoas afetadas, e os estudos de gémeos atribuem a fatores genéticos cerca de um terço da vulnerabilidade; o restante depende sobretudo de experiências individuais e do ambiente.6

Associa-se com frequência a outras perturbações: depressão, outras perturbações de ansiedade e consumo de substâncias.1,7 As perturbações de ansiedade tendem a ter um curso crónico, mas a sua frequência diminui com a idade.7 A ansiedade generalizada associa-se também a maior risco de suicídio e de doença cardiovascular, o que reforça a importância de ser reconhecida e tratada.4 A relação entre saúde mental e coração está descrita em Saúde mental, doença cardiovascular e demência.

Como é feita a avaliação?

A avaliação caracteriza a preocupação, os sintomas físicos, a duração e o impacto, e procura:1,2

  • depressão ou outras perturbações de ansiedade associadas;
  • consumo de álcool, de outras substâncias ou de medicamentos que possam causar ou agravar a ansiedade;
  • doenças médicas que expliquem os sintomas, como o hipertiroidismo, ou que coexistam com a ansiedade;
  • tratamentos anteriores e a resposta que tiveram.

Quando há depressão ou outra perturbação de ansiedade, trata-se primeiro a mais grave, e o consumo nocivo de substâncias tem prioridade, porque o seu tratamento pode, por si, melhorar a ansiedade.1 Quando os sintomas físicos predominam, pode ser útil articular com o médico de família ou com outras especialidades. A consulta de psiquiatria pode decorrer presencialmente em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.

Como se trata?

As diretrizes britânicas organizam o tratamento por etapas, começando pela intervenção eficaz menos exigente:1

  • Etapa 1: reconhecimento e avaliação, informação sobre a perturbação e as opções de tratamento, e acompanhamento regular dos sintomas.
  • Etapa 2: se não houver melhoria, intervenções psicológicas de baixa intensidade, como autoajuda guiada ou grupos psicoeducativos.
  • Etapa 3: se a resposta for insuficiente ou houver limitação marcada, uma intervenção psicológica de alta intensidade ou medicação, escolhida segundo a preferência da pessoa, porque não há evidência de que uma seja superior à outra.
  • Etapa 4: nas situações complexas, resistentes ao tratamento, com limitação muito marcada ou risco de autolesão, cuidados especializados.

Psicoterapia. As duas intervenções de alta intensidade recomendadas são a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e o relaxamento aplicado, em sessões semanais durante alguns meses.1 Em meta-análises, a psicoterapia teve efeitos médios a grandes, e há indicações de que o benefício da TCC se mantém no seguimento.8,9

Medicação. A primeira opção é um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS). Se não for eficaz, pode mudar-se para outro ISRS ou para um inibidor da recaptação da serotonina e da noradrenalina (IRSN); se nenhum destes for tolerado, pode considerar-se um gabapentinoide, com atenção ao risco de uso indevido e dependência.1,5 Várias classes de medicamentos têm eficácia demonstrada, e a falta de resposta ao primeiro não significa que a medicação não possa ajudar.10 No início pode haver um aumento transitório da ansiedade, agitação ou alterações do sono, e nas pessoas com menos de 30 anos a vigilância é mais próxima nas primeiras semanas.1

As benzodiazepinas não são recomendadas no tratamento da ansiedade generalizada, exceto por pouco tempo durante uma crise, e os antipsicóticos não são recomendados nos cuidados de saúde primários.1 Quando a resposta é parcial, pode associar-se psicoterapia à medicação.1 A investigação com psicadélicos na ansiedade está descrita em Psicadélicos na ansiedade.

Qual é a evolução?

A ansiedade generalizada tende a ser persistente, com períodos melhores e piores e recaídas, e mesmo com tratamento é frequente que alguns sintomas se mantenham.3 Os tratamentos com evidência reduzem a preocupação e os sintomas físicos a curto e médio prazo, e melhoram também os sintomas depressivos associados.3,8,9

Um objetivo realista é diminuir a intensidade e a frequência da preocupação, recuperar o sono e a concentração, e retomar as atividades que a ansiedade foi limitando. Quando a medicação é eficaz, as diretrizes aconselham mantê-la durante pelo menos um ano, porque o risco de recaída é elevado; reconhecer cedo os sinais de recaída faz também parte do plano.1 Sono regular, atividade física e menos cafeína e álcool ajudam o dia a dia e complementam o tratamento, como se descreve em Ansiedade; quando a insónia se torna um problema próprio, veja Insónia.

Quando procurar ajuda?

Vale a pena procurar avaliação quando:

  • a preocupação ocupa grande parte do dia e é difícil de interromper há semanas ou meses;
  • o sono, a concentração ou o rendimento no trabalho estão a ser afetados;
  • há idas repetidas ao médico ou à urgência por sintomas físicos sem causa encontrada;
  • se recorre ao álcool ou a calmantes para controlar a ansiedade;
  • surgem tristeza persistente, desesperança ou perda de interesse, que podem indicar depressão.

Não é preciso esperar que a preocupação se torne grave: uma avaliação mais precoce permite começar pela intervenção eficaz menos exigente e acompanhar a evolução ao longo do tempo.1

Perguntas frequentes

Preocupar-me muito é sinal de ansiedade generalizada?

Não necessariamente. Todas as pessoas se preocupam, sobretudo perante problemas reais. Na ansiedade generalizada, a preocupação é excessiva, difícil de controlar, abrange vários temas e está presente na maior parte dos dias durante pelo menos seis meses, acompanhada de sintomas como tensão muscular, cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração ou sono perturbado, e causa sofrimento ou limita a vida diária.

A ansiedade generalizada pode causar sintomas físicos?

Sim. Tensão muscular, cansaço, inquietação, alterações do sono, palpitações, boca seca e transpiração fazem parte do quadro. Muitas pessoas procuram primeiro o médico de família por estes sintomas ou pela preocupação com a saúde. A avaliação exclui uma causa médica ou o efeito de substâncias e medicamentos; depois disso, os sintomas físicos são tratados como parte da ansiedade.

Terapia ou medicação: qual é melhor?

As diretrizes britânicas recomendam basear a escolha na preferência da pessoa, porque não há evidência de que uma das opções seja superior. A terapia cognitivo-comportamental e o relaxamento aplicado têm boa evidência; na medicação, a primeira opção é um antidepressivo da classe dos ISRS. Quando a resposta a uma delas é parcial, as duas podem ser combinadas. A decisão é tomada em consulta, depois da avaliação.

Os calmantes são uma solução para a ansiedade generalizada?

As benzodiazepinas aliviam a ansiedade, mas as diretrizes britânicas não as recomendam para o tratamento da ansiedade generalizada, salvo como medida de curta duração durante uma crise. O tratamento de base é a psicoterapia e, quando indicado, a medicação com antidepressivos. Se já toma calmantes há algum tempo, não os suspenda por iniciativa própria: a redução deve ser planeada com o médico.

A ansiedade generalizada passa?

Tende a ser persistente e a ter fases melhores e piores, e a frequência das perturbações de ansiedade diminui com a idade. Os tratamentos com evidência reduzem de forma consistente a preocupação e os sintomas físicos, e há indicações de que o benefício da terapia cognitivo-comportamental se mantém no seguimento. Um objetivo realista é recuperar o controlo sobre a preocupação e a qualidade de vida, mantendo estratégias para prevenir recaídas.

Pontos-chave

  • A perturbação de ansiedade generalizada é uma preocupação excessiva e difícil de controlar sobre vários temas, presente na maior parte dos dias durante pelo menos seis meses, com sintomas físicos e psicológicos.
  • A avaliação exclui causas médicas e o efeito de substâncias, e procura depressão e outras perturbações associadas.
  • O tratamento é feito por etapas: a terapia cognitivo-comportamental, o relaxamento aplicado e os antidepressivos ISRS ou IRSN têm boa evidência; as benzodiazepinas reservam-se para crises de curta duração.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). 2011, atualizada em 2020. Fonte (site externo)
  2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª edição, texto revisto (DSM-5-TR). 2022. Fonte (site externo)
  3. Tyrer P, Baldwin D. Generalised anxiety disorder. Lancet. 2006;368(9553):2156–2166. doi:10.1016/S0140-6736(06)69865-6 PubMed (site externo)
  4. DeMartini J, Patel G, Fancher TL. Generalized anxiety disorder. Ann Intern Med. 2019;170(7):ITC49–ITC64. doi:10.7326/AITC201904020 PubMed (site externo)
  5. Szuhany KL, Simon NM. Anxiety disorders: a review. JAMA. 2022;328(24):2431–2445. doi:10.1001/jama.2022.22744 PubMed (site externo)
  6. Hettema JM, Neale MC, Kendler KS. A review and meta-analysis of the genetic epidemiology of anxiety disorders. Am J Psychiatry. 2001;158(10):1568–1578. doi:10.1176/appi.ajp.158.10.1568 PubMed (site externo)
  7. Bandelow B, Michaelis S. Epidemiology of anxiety disorders in the 21st century. Dialogues Clin Neurosci. 2015;17(3):327–335. doi:10.31887/DCNS.2015.17.3/bbandelow PubMed (site externo)
  8. Carl E, Witcraft SM, Kauffman BY, et al. Psychological and pharmacological treatments for generalized anxiety disorder (GAD): a meta-analysis of randomized controlled trials. Cogn Behav Ther. 2020;49(1):1–21. doi:10.1080/16506073.2018.1560358 PubMed (site externo)
  9. Cuijpers P, Sijbrandij M, Koole S, et al. Psychological treatment of generalized anxiety disorder: a meta-analysis. Clin Psychol Rev. 2014;34(2):130–140. doi:10.1016/j.cpr.2014.01.002 PubMed (site externo)
  10. Slee A, Nazareth I, Bondaronek P, et al. Pharmacological treatments for generalised anxiety disorder: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2019;393(10173):768–777. doi:10.1016/S0140-6736(18)31793-8 PubMed (site externo)

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