Perturbação borderline da personalidade

A perturbação borderline da personalidade caracteriza-se por emoções muito intensas e instáveis, relações difíceis e uma imagem de si pouco estável. Tem tratamento, sobretudo com psicoterapias estruturadas, e muitas pessoas melhoram de forma consistente ao longo do tempo.1,2,6

Pintura de Gustave Courbet: uma praia de areia com dois pequenos barcos pousados, um mar verde-azulado e sereno com velas ao longe, sob um céu amplo cheio de nuvens claras

O mar que Courbet pintou sereno é o mesmo que conhece tempestades; também as emoções mais intensas podem acalmar.

Gustave Courbet, O mar calmo, 1869. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)

Em resumo

A perturbação borderline da personalidade traduz-se em emoções intensas e instáveis, impulsividade, medo de abandono e relações difíceis. O tratamento principal é a psicoterapia estruturada; a medicação não trata a perturbação em si, mas pode tratar condições associadas. Muitas pessoas melhoram ao longo dos anos. Pedro Zuzarte, psiquiatra em Lisboa, faz a avaliação em consulta presencial ou por teleconsulta.

O que é a perturbação borderline da personalidade?

É uma perturbação da personalidade marcada pela instabilidade da imagem de si, das relações e das emoções, com impulsividade.1 Não é um defeito de caráter nem uma forma de «chamar a atenção»: é uma condição clínica reconhecida, com diagnóstico e tratamento definidos.1,3

Estima-se que, ao longo da vida, afete entre 0,7% e 2,7% dos adultos na população geral, e é bastante mais frequente entre as pessoas que procuram serviços de saúde mental: cerca de 12% nas consultas externas de psiquiatria e 22% nos internamentos.1 Reconhecê-la cedo permite começar mais cedo um tratamento adequado, o que pode reduzir o sofrimento.1 Na classificação da Organização Mundial da Saúde (CID-11), as perturbações da personalidade são descritas pela sua gravidade, e o «padrão borderline» é um especificador próprio.8 No DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria, mantém-se como diagnóstico autónomo.9

Quais são os sinais mais frequentes?

Os sinais descritos nas classificações atuais incluem:1

  • medo intenso de ser abandonado e esforços para o evitar;
  • relações intensas e instáveis, que oscilam entre a idealização e a desvalorização;
  • imagem de si ou sentido de identidade instável;
  • impulsividade com potencial de dano, por exemplo em gastos, consumos ou condução;
  • comportamentos autolesivos ou ameaças e tentativas de suicídio;
  • mudanças de humor rápidas e intensas, em resposta a acontecimentos do dia a dia;
  • sentimento crónico de vazio;
  • raiva intensa, difícil de controlar;
  • ideias paranoides ou dissociação transitórias, em momentos de grande stress.

Uma grande sensibilidade ao que se sente como rejeição está no centro de muitas destas dificuldades.2 Ter algumas destas experiências, de forma pontual, não significa ter a perturbação: o diagnóstico exige um padrão persistente, presente em vários contextos.9

Porque surge?

Não há uma causa única. A evidência atual aponta para a interação entre fatores genéticos e experiências adversas na infância, como negligência ou maus-tratos.1 Os mecanismos neurobiológicos continuam a ser estudados e ainda não estão esclarecidos.1

Perceber esta interação ajuda a afastar a culpa, da própria pessoa ou da família, e a concentrar a atenção naquilo que se pode mudar: competências para regular as emoções, lidar com as crises e manter relações mais estáveis.

Como se faz o diagnóstico, e porque não basta um contacto breve?

O diagnóstico é clínico. Assenta numa avaliação cuidadosa da história de vida, dos padrões de relação, do funcionamento no trabalho e nos estudos, e de outras perturbações presentes; entrevistas semiestruturadas permitem um diagnóstico fiável.1,3

Por se tratar de um padrão duradouro, não deve ser definido a partir de um único momento, sobretudo durante uma crise: a NICE recomenda rever o diagnóstico quando foi feito numa situação de urgência.3 Também é importante distinguir e identificar condições que muitas vezes coexistem, como a depressão, o consumo de substâncias, a perturbação de stress pós-traumático, a PHDA, a doença bipolar ou perturbações do comportamento alimentar.1 Um diagnóstico incorreto leva com frequência a tratamentos com medicação que raramente resultam.2

Que psicoterapias têm evidência?

A psicoterapia é o tratamento de escolha.1 Várias abordagens foram testadas em ensaios aleatorizados:1,4

  • terapia comportamental dialética (DBT), centrada em competências de regulação emocional, tolerância ao sofrimento e relações;
  • tratamento baseado na mentalização (MBT), que ajuda a compreender os próprios estados mentais e os dos outros;
  • psicoterapia focada na transferência;
  • terapia dos esquemas.

Uma revisão Cochrane de 2020, com 75 ensaios e 4507 participantes, concluiu que as psicoterapias adaptadas a esta perturbação reduzem a gravidade dos sintomas em comparação com o tratamento habitual (evidência de qualidade moderada); os benefícios na autolesão, nos comportamentos suicidários e no funcionamento social basearam-se em evidência de baixa qualidade.4 A DBT e a MBT são as mais estudadas, e nenhuma abordagem se mostrou superior às outras.1,4

A NICE desaconselha intervenções breves, com menos de três meses, dirigidas especificamente a esta perturbação fora de um serviço estruturado, e recomenda considerar um programa completo de DBT nas mulheres em que reduzir a autolesão repetida é prioritário.3 Nem todas as pessoas respondem o suficiente, o que torna importante acompanhar a evolução e ajustar o plano.1

Qual é o papel da medicação?

Nenhum medicamento demonstrou de forma consistente tratar as características centrais da perturbação.1,5 A NICE recomenda que a medicação não seja usada especificamente para a perturbação borderline nem para sintomas isolados, como a autolesão repetida ou a instabilidade emocional, e que os antipsicóticos não sejam usados no tratamento a médio e longo prazo.3 Uma revisão Cochrane de 2022 não encontrou diferenças face ao placebo nos resultados principais, com evidência de certeza muito baixa.5

A medicação pode, no entanto, fazer parte do tratamento de condições associadas, como a depressão, a ansiedade ou a perturbação de stress pós-traumático, seguindo as recomendações próprias de cada uma.1,3 Durante uma crise, a NICE admite um uso de curta duração, com revisão próxima.3 Quando há vários medicamentos sem uma indicação clara, a revisão do plano procura reduzir o que não é necessário.3

O que é um plano de crise e quando procurar ajuda urgente?

O plano de crise é preparado em conjunto, com antecedência, e fica escrito. Segundo a NICE, identifica os fatores que podem desencadear uma crise, as estratégias de autogestão que costumam resultar e a forma de pedir ajuda quando essas estratégias não chegam, incluindo os contactos a usar fora de horas.3 Depois de cada crise, revê-se o que ajudou e atualiza-se o plano.3

O risco de autolesão e de suicídio é real nesta perturbação.1 Pensamentos de suicídio, autolesão grave ou risco para si ou para outros são motivo para procurar ajuda urgente de imediato.

A perturbação borderline melhora com o tempo?

Sim, em muitas pessoas. A maioria entra gradualmente em remissão dos sintomas, e os tratamentos psicossociais com evidência podem acelerar essa melhoria.2

Um estudo norte-americano acompanhou 290 pessoas com esta perturbação, avaliadas inicialmente durante um internamento. Em 10 anos, 93% tiveram uma remissão dos sintomas de pelo menos dois anos e 86% uma remissão mantida de pelo menos quatro anos; 50% alcançaram a recuperação, definida como remissão com bom funcionamento social e profissional.6 Aos 16 anos de seguimento, a remissão sustentada era bem mais frequente do que a recuperação completa, e as recaídas eram possíveis.7

Com o tempo, os comportamentos autolesivos e a tendência para crises podem diminuir, mesmo quando alguma sensibilidade emocional se mantém.2 Estes números dão razões para esperança e mostram também que o funcionamento no trabalho e nas relações merece atenção própria no tratamento, para lá dos sintomas.2,7

Como podem as famílias ajudar e ser ajudadas?

A família e as pessoas próximas vivem muitas vezes de perto a intensidade das crises. A NICE recomenda perguntar diretamente à pessoa se quer envolver a família no seu acompanhamento e, com o seu consentimento e respeitando a confidencialidade, incentivar essa participação e informar a família sobre grupos de apoio, quando existam.3

  • Conhecer a perturbação ajuda a interpretar as reações sem as levar sempre para o plano pessoal.
  • Conhecer o plano de crise permite saber o que fazer e quando pedir ajuda.
  • Cuidar de si próprio também faz parte: quem acompanha precisa de apoio.

A avaliação pode ser feita em consulta de psiquiatria, presencial em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.

Perguntas frequentes

A perturbação borderline tem tratamento?

Sim. O tratamento principal é a psicoterapia estruturada, como a terapia comportamental dialética, o tratamento baseado na mentalização, a psicoterapia focada na transferência ou a terapia dos esquemas. Estas abordagens reduzem a gravidade dos sintomas em comparação com o tratamento habitual. O plano inclui também o tratamento de condições associadas, como a depressão, e um plano de crise preparado em conjunto.

Existe medicação para a perturbação borderline?

Nenhum medicamento demonstrou de forma consistente tratar as características centrais da perturbação, e a NICE não recomenda medicação especificamente para ela. A medicação pode ser útil para tratar condições associadas, como depressão, ansiedade ou stress pós-traumático, e, de forma breve e revista, durante uma crise. Quando há vários medicamentos sem indicação clara, a revisão do plano procura reduzir o que não é necessário.

Pode ser diagnosticada numa única consulta?

Em regra, não deve ser. Trata-se de um padrão duradouro de emoções, relações e comportamento, que se avalia ao longo da história de vida e em vários contextos. Durante uma crise, os sintomas podem parecer-se com os de outras condições, e a NICE recomenda rever um diagnóstico feito numa urgência. Distinguir a depressão, a doença bipolar, a PHDA ou o stress pós-traumático faz parte da avaliação.

A perturbação borderline dura para sempre?

Não necessariamente. Num estudo que acompanhou 290 pessoas durante 10 anos, 93% tiveram uma remissão dos sintomas de pelo menos dois anos, e metade alcançou também um bom funcionamento social e profissional. As recaídas são possíveis e o funcionamento no dia a dia pode precisar de mais tempo e de apoio próprio, mas a melhoria é frequente.

Como posso ajudar um familiar com perturbação borderline?

Conhecer a perturbação ajuda a compreender reações intensas sem as tomar sempre como pessoais. Com o consentimento da pessoa, a família pode participar no acompanhamento e conhecer o plano de crise, para saber o que fazer e quando pedir ajuda. Procurar informação e grupos de apoio para familiares, e cuidar da própria saúde, também faz parte. Em risco imediato, ligue 112.

Pontos-chave

  • A perturbação borderline da personalidade caracteriza-se pela instabilidade das emoções, das relações e da imagem de si, com impulsividade, e resulta da interação entre fatores genéticos e experiências adversas.
  • A psicoterapia estruturada, como a DBT ou a MBT, é o tratamento de escolha; a medicação não trata a perturbação em si, mas pode tratar condições associadas.
  • Muitas pessoas melhoram ao longo dos anos, e um plano de crise preparado com antecedência ajuda a atravessar os momentos mais difíceis.

Referências

  1. Leichsenring F, Fonagy P, Heim N, et al. Borderline personality disorder: a comprehensive review of diagnosis and clinical presentation, etiology, treatment, and current controversies. World Psychiatry. 2024;23(1):4–25. doi:10.1002/wps.21156 PubMed (site externo)
  2. Gunderson JG, Herpertz SC, Skodol AE, Torgersen S, Zanarini MC. Borderline personality disorder. Nat Rev Dis Primers. 2018;4:18029. doi:10.1038/nrdp.2018.29 PubMed (site externo)
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Borderline personality disorder: recognition and management (CG78). 2009. Fonte (site externo)
  4. Storebø OJ, Stoffers-Winterling JM, Völlm BA, et al. Psychological therapies for people with borderline personality disorder. Cochrane Database Syst Rev. 2020;5(5):CD012955. doi:10.1002/14651858.CD012955.pub2 PubMed (site externo)
  5. Stoffers-Winterling JM, Storebø OJ, Pereira Ribeiro J, et al. Pharmacological interventions for people with borderline personality disorder. Cochrane Database Syst Rev. 2022;11(11):CD012956. doi:10.1002/14651858.CD012956.pub2 PubMed (site externo)
  6. Zanarini MC, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice G. Time to attainment of recovery from borderline personality disorder and stability of recovery: a 10-year prospective follow-up study. Am J Psychiatry. 2010;167(6):663–667. doi:10.1176/appi.ajp.2009.09081130 PubMed (site externo)
  7. Zanarini MC, Frankenburg FR, Reich DB, Fitzmaurice G. Attainment and stability of sustained symptomatic remission and recovery among patients with borderline personality disorder and axis II comparison subjects: a 16-year prospective follow-up study. Am J Psychiatry. 2012;169(5):476–483. doi:10.1176/appi.ajp.2011.11101550 PubMed (site externo)
  8. Organização Mundial da Saúde. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11), capítulo 6: perturbações da personalidade e traços relacionados (6D10, 6D11). 2022. Fonte (site externo)
  9. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª ed., texto revisto (DSM-5-TR). 2022. Fonte (site externo)

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