MDMA e stress pós-traumático
O MDMA foi estudado como auxiliar de psicoterapia na perturbação de stress pós-traumático, em dois ensaios de fase 3 com resultados positivos.1,2 Em 2024, a FDA não o aprovou e pediu um ensaio adicional; na União Europeia não é um medicamento autorizado, e o tratamento de primeira linha continua a ser a psicoterapia focada no trauma.5,11,16

Pintado no ano em que a guerra civil americana terminou: um antigo soldado de regresso ao trabalho no campo.
Winslow Homer, O veterano num novo campo, 1865. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)
O que é a terapia assistida por MDMA?
É um programa de psicoterapia em que algumas sessões decorrem sob o efeito de MDMA, com preparação antes e sessões de integração depois.1 Nos ensaios, o MDMA foi sempre dado dentro deste programa, nunca isoladamente, e a comparação foi feita com a mesma psicoterapia associada a placebo.1,2
A perturbação de stress pós-traumático tem uma página própria, com os sintomas, a avaliação e os tratamentos habituais: Perturbação de stress pós-traumático.

MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina). Modelo do site, também usado na página de terapia assistida por psicadélicos.
O que mostraram os ensaios de fase 3?
Mostraram mais redução dos sintomas com MDMA do que com placebo, em ambos os casos com a mesma psicoterapia. O primeiro ensaio, publicado em 2021, incluiu pessoas com perturbação grave;1 o segundo, publicado em 2023, pessoas com perturbação moderada a grave.2
Em 2024, uma revista científica retratou três artigos baseados em análises agrupadas dos ensaios de fase 2, por violações do protocolo equivalentes a conduta não ética num dos centros. Os artigos dos ensaios de fase 3 não foram retratados.6
Porque é que a FDA não aprovou?
Considerou a evidência insuficiente para aprovar. Em junho de 2024, um comité consultivo da FDA votou maioritariamente contra a eficácia demonstrada e contra um balanço benefício-risco favorável.4 A FDA sublinhou que os efeitos do MDMA tornam quase impossível ocultar o tratamento, o que pode gerar viés de expectativa, e notou que os efeitos ligados ao potencial de abuso não foram recolhidos de forma sistemática.3
Em agosto de 2024, a FDA não aprovou o pedido e pediu um ensaio de fase 3 adicional.5 No mesmo ano, um relatório independente norte-americano considerou a evidência pública insuficiente para avaliar benefícios e danos, apontando a quebra funcional da ocultação e preocupações com o desenho e a condução dos ensaios.7
O que mudou em 2026?
A 9 de agosto de 2026, a publicação especializada Psychedelic Alpha noticiou que a empresa que desenvolve o MDMA, hoje Resilient Pharmaceuticals (anteriormente Lykos Therapeutics), tinha voltado a submeter o pedido à FDA sem realizar outro ensaio de fase 3.8 No dia seguinte, 10 de agosto, a MAPS, que deu origem à empresa, reagiu à notícia.9 Foi noticiado com base em fontes não identificadas: a empresa não o confirmou publicamente e, até ao momento, a FDA não anunciou decisão.8,9
Em julho de 2026, a FDA publicou orientações finais sobre a forma de conduzir ensaios clínicos com psicadélicos, incluindo a questão da ocultação.10
Em que fase está cada abordagem?
A tabela coloca o MDMA ao lado do tratamento habitual, para mostrar onde cada um se situa.
| Abordagem | Onde foi estudada | Evidência | Fase |
|---|---|---|---|
| Psicoterapias focadas no trauma | Perturbação de stress pós-traumático | Diretrizes internacionais: tratamento de primeira linha11,12 | Aprovado · disponível |
| MDMA com psicoterapia | Perturbação de stress pós-traumático grave | Ensaio de fase 3 positivo (2021)1 | Fase 3 |
| MDMA com psicoterapia | Perturbação de stress pós-traumático moderada a grave | Ensaio de fase 3 positivo (2023)2 | Fase 3 |
| Pedido de autorização nos EUA | — | Não aprovado em 2024; pedido de novo ensaio de fase 35 | Submissão regulamentar (2024) |
| Nova submissão nos EUA | — | Noticiada a 9 de agosto de 2026, sem confirmação pública da empresa8,9 | Sem decisão da FDA |
| Acesso excecional na Austrália | Perturbação de stress pós-traumático | Prescrição por psiquiatras autorizados desde julho de 202315 | Legal (acesso restrito) |
Qual é o tratamento de primeira linha?
As psicoterapias focadas no trauma, como a terapia de processamento cognitivo, a exposição prolongada e a dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR), são o tratamento de primeira linha recomendado pelas diretrizes internacionais.11,12 A medicação tem um lugar próprio, decidido caso a caso.11
Que riscos tem o MDMA?
Os riscos mais relevantes são cardiovasculares. Em estudos controlados com voluntários saudáveis, o MDMA aumentou a pressão arterial, a frequência cardíaca e a temperatura corporal numa proporção relevante de pessoas, e o risco será maior em quem tem doença cardiovascular.13 Outros riscos conhecidos:
- a hiponatremia, uma descida perigosa do sódio no sangue, sobretudo com ingestão excessiva de água;14
- a subida da temperatura corporal;13
- o potencial de abuso, que a FDA considerou semelhante ao de outros estimulantes controlados.3
Por isso, nos ensaios, a avaliação prévia incluiu a saúde cardiovascular, a medicação em curso e a história psiquiátrica, com vigilância durante as sessões.1,3
Qual é o enquadramento em Portugal e no mundo?
Na União Europeia, o MDMA não é um medicamento autorizado; em Portugal, o seu uso clínico limita-se a ensaios clínicos.16 A Austrália permite, desde julho de 2023, que psiquiatras com autorização específica receitem MDMA no tratamento da perturbação de stress pós-traumático, apesar de não existir um medicamento registado.15 Nos EUA não há aprovação.5,8
O que ainda não se sabe?
Que perguntas fazer ao psiquiatra?
- Já fiz uma psicoterapia focada no trauma completa, com um terapeuta com formação específica?
- Há outras condições, como depressão, consumo de substâncias ou problemas de sono, que devam ser tratadas ao mesmo tempo?
- A minha saúde cardiovascular permitiria participar num ensaio clínico?
- Há ensaios clínicos em curso para os quais eu possa ser elegível?
Em resumo
- O MDMA foi estudado como auxiliar de psicoterapia na perturbação de stress pós-traumático, com dois ensaios de fase 3 positivos.
- Em 2024, a FDA não o aprovou, apontando a dificuldade de ocultar o tratamento e pedindo um ensaio adicional.
- Em 2026 foi noticiada uma nova submissão, sem confirmação pública da empresa e sem decisão da FDA.
- Na União Europeia não é um medicamento autorizado; na Austrália há acesso restrito desde 2023.
- A psicoterapia focada no trauma continua a ser o tratamento de primeira linha.
Referências
- Mitchell JM, Bogenschutz M, Lilienstein A, et al. MDMA-assisted therapy for severe PTSD: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 study. Nat Med. 2021;27(6):1025–1033. doi:10.1038/s41591-021-01336-3 PubMed (site externo)
- Mitchell JM, Ot’alora G M, van der Kolk B, et al. MDMA-assisted therapy for moderate to severe PTSD: a randomized, placebo-controlled phase 3 trial. Nat Med. 2023;29(10):2473–2480. doi:10.1038/s41591-023-02565-4 PubMed (site externo)
- U.S. Food and Drug Administration, Division of Psychiatry. Psychopharmacologic Drugs Advisory Committee, 4 de junho de 2024: apresentação sobre o pedido do MDMA para a perturbação de stress pós-traumático (NDA 215455). Fonte (site externo)
- PharmExec. Votação do comité consultivo da FDA sobre o MDMA na perturbação de stress pós-traumático (5 de junho de 2024). Fonte (site externo)
- Lykos Therapeutics. Comunicado sobre a carta de resposta completa da FDA ao pedido do MDMA para a perturbação de stress pós-traumático. 9 de agosto de 2024. Fonte (site externo)
- Retraction Note: Long-term follow-up outcomes of MDMA-assisted psychotherapy for treatment of PTSD: a longitudinal pooled analysis of six phase 2 trials. Psychopharmacology (Berl). 2024;241(11):2407. doi:10.1007/s00213-024-06665-y PMC (site externo)
- Institute for Clinical and Economic Review (ICER). Relatório final de evidência sobre o tratamento da perturbação de stress pós-traumático (comunicado de 27 de junho de 2024). Fonte (site externo)
- Psychedelic Alpha. Notícia de 9 de agosto de 2026 (newsletter semanal) sobre a nova submissão do pedido do MDMA à FDA, com base em fontes não identificadas; desenvolvida no artigo de 12 de agosto de 2026. Fonte (site externo)
- MAPS. Resposta à notícia sobre o MDMA na perturbação de stress pós-traumático e a FDA (10 de agosto de 2026). Fonte (site externo)
- U.S. Food and Drug Administration. Psychedelic drugs: considerations for clinical investigations, orientação final. Federal Register, 14 de julho de 2026. Fonte (site externo)
- National Institute for Health and Care Excellence. Post-traumatic stress disorder (NG116). 2018. Fonte (site externo)
- Schnurr PP, Hamblen JL, Wolf J, et al. The management of posttraumatic stress disorder and acute stress disorder: synopsis of the 2023 U.S. Department of Veterans Affairs and U.S. Department of Defense clinical practice guideline. Ann Intern Med. 2024;177(3):363–374. doi:10.7326/M23-2757 PubMed (site externo)
- Vizeli P, Liechti ME. Safety pharmacology of acute MDMA administration in healthy subjects. J Psychopharmacol. 2017;31(5):576–588. doi:10.1177/0269881117691569 PubMed (site externo)
- Faria AC, Carmo H, Carvalho F, et al. Drinking to death: hyponatraemia induced by synthetic phenethylamines. Drug Alcohol Depend. 2020;212:108045. doi:10.1016/j.drugalcdep.2020.108045 PubMed (site externo)
- European Medicines Agency. EMA multi-stakeholder workshop on psychedelics: workshop report. 2024 (inclui o enquadramento australiano desde 1 de julho de 2023). Fonte (site externo)
- Agência Europeia de Medicamentos, registo de medicamentos (consultado a 10 de outubro de 2026): sem autorização de introdução no mercado para psilocibina, MDMA, LSD ou DMT; Agência Europeia de Medicamentos, relatório do workshop sobre psicadélicos (2024). Fonte (site externo)
Revisão clínica: Pedro Zuzarte, médico psiquiatra · Publicado: · Revisto: .