Demência: avaliação e acompanhamento

A demência não é uma parte normal do envelhecimento. É um declínio progressivo da memória e de outras capacidades, que passa a interferir com o dia a dia. Uma avaliação cuidadosa ajuda a chegar ao diagnóstico, a tratar o que é tratável e a apoiar a família.

Pintura a óleo de uma mulher idosa, de perfil, com um manto vermelho e um toucado dourado, a ler com atenção um grande livro aberto, com a mão pousada sobre a página, numa sala escura

Rembrandt pintou uma mulher idosa absorvida na leitura, com a mão pousada sobre o livro. A memória, a atenção e a linguagem acompanham-nos ao longo da vida. Quando começam a falhar de forma persistente, merecem ser avaliadas.

Rembrandt van Rijn, Velha a ler, provavelmente a profetisa Ana, 1631. Óleo sobre madeira. Rijksmuseum, Amesterdão (SK-A-3066). Domínio público. Registo da obra (site externo)

Em resumo

A demência é um conjunto de doenças que causam declínio progressivo da memória, do pensamento e da autonomia. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente. Antes do diagnóstico, é essencial excluir causas tratáveis, como a depressão, efeitos de medicamentos ou alterações metabólicas. O acompanhamento inclui o tratamento dos sintomas, o apoio à família e o controlo dos fatores de risco.

Esquecer-se de um nome não é demência. Mas perder-se num caminho conhecido, repetir as mesmas perguntas ou deixar de conseguir gerir as contas pode ser sinal de que algo está a mudar.

O que é

A demência é uma síndrome: um declínio adquirido e progressivo de várias funções cognitivas, como a memória, a linguagem, a orientação, o raciocínio e a capacidade de planear, suficientemente marcado para interferir com a autonomia no dia a dia.1 Afeta sobretudo pessoas mais velhas, mas não é uma consequência inevitável da idade.

Além das alterações cognitivas, são frequentes alterações do humor, da ansiedade, do sono e do comportamento, como apatia, irritabilidade, agitação ou alucinações. Estes sintomas pesam muito na qualidade de vida da pessoa e da família, e muitos podem ser tratados.

Tipos mais frequentes

  • doença de Alzheimer, a causa mais frequente, que começa habitualmente por dificuldades na memória recente;1
  • demência vascular, associada a doença dos vasos cerebrais, muitas vezes com lentificação e dificuldade em planear;
  • demência com corpos de Lewy, com flutuações da atenção, alucinações visuais e sintomas parkinsónicos;
  • demência frontotemporal, que pode começar por alterações do comportamento ou da linguagem, por vezes antes dos 65 anos;
  • formas mistas, sobretudo doença de Alzheimer com doença vascular, frequentes em idades mais avançadas.

Envelhecimento normal ou demência?

Com a idade, é habitual alguma lentificação e esquecimentos ocasionais que não afetam a autonomia. No défice cognitivo ligeiro, as dificuldades são maiores do que o esperado para a idade e são notadas pela pessoa ou pela família, mas a vida diária mantém-se no essencial. Na demência, as dificuldades já interferem com tarefas que antes eram simples, como gerir a medicação, as contas ou as deslocações.

Nem todas as pessoas com défice cognitivo ligeiro evoluem para demência. Por isso, a reavaliação ao longo do tempo faz parte do acompanhamento. Veja também a página sobre dificuldades cognitivas.

Causas tratáveis a excluir

Antes de falar em demência, a avaliação procura causas que possam explicar ou agravar as queixas e que têm tratamento:

  • depressão, que nas pessoas mais velhas pode manifestar-se sobretudo por dificuldades de atenção e de memória;
  • medicamentos com efeito sedativo ou anticolinérgico, e o álcool;
  • défice de vitamina B12, alterações da tiroide e outras alterações metabólicas;
  • perturbações do sono, incluindo a apneia do sono;
  • doença cerebrovascular e fatores de risco vascular não controlados;
  • delirium, um estado de confusão de instalação rápida, muitas vezes associado a infeções ou a outras doenças agudas, que exige avaliação médica urgente.

A depressão de início tardio associa-se também a maior risco de demência,2 e tratá-la é sempre importante.

Quando procurar avaliação

Quando há esquecimentos frequentes de acontecimentos recentes, repetição das mesmas perguntas, dificuldade em encontrar palavras, desorientação em locais conhecidos, dificuldade em gerir dinheiro ou medicação, ou mudanças de personalidade e de comportamento. Muitas vezes é a família quem nota primeiro.

Uma alteração súbita da memória ou da consciência, com confusão de instalação rápida, deve ser avaliada de imediato num serviço de urgência.

Como é feita a avaliação

A avaliação começa por uma história clínica detalhada, idealmente com o contributo de um familiar ou de alguém próximo, e por testes cognitivos de rastreio. Inclui a revisão dos medicamentos, análises (por exemplo, hemograma, vitamina B12, função tiroideia e renal) e, quando indicado, exames de imagem cerebral e uma avaliação neuropsicológica mais detalhada.3 Sempre que necessário, é articulada com a Neurologia e com o médico de família.

Tratamento e apoio

Ainda não existe cura para a maioria das demências, mas há muito que pode ser feito. Na doença de Alzheimer e noutras formas, alguns medicamentos (inibidores da colinesterase e memantina) podem ajudar nos sintomas cognitivos em determinadas fases.3 Tratar a depressão, a ansiedade, as alterações do sono e os sintomas comportamentais melhora a qualidade de vida. Nestas idades, a escolha da medicação é feita com especial cuidado, porque o risco de efeitos indesejados é maior.

O plano inclui também a informação e o apoio aos cuidadores, a adaptação das rotinas e da casa, a atividade física e social e, quando chega o momento, o planeamento de decisões futuras com a pessoa e com a família.

Prevenção e fatores de risco

Segundo a comissão da revista Lancet, cerca de 45 % dos casos de demência poderão estar associados a 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida, como a hipertensão arterial, a diabetes, o tabaco, a inatividade física, a perda auditiva ou visual não corrigida, a depressão, o isolamento social e o colesterol LDL elevado.4 Cuidar do coração é também cuidar do cérebro: veja como o coração, o cérebro e a saúde mental se influenciam.

Perguntas frequentes

A demência faz parte do envelhecimento normal?

Não. Alguma lentificação e esquecimentos ocasionais são habituais com a idade, mas a demência é uma doença: um declínio progressivo que passa a interferir com a autonomia. Por isso, queixas persistentes ou que se agravam devem ser avaliadas.

Qual é a diferença entre demência e doença de Alzheimer?

Demência é o nome do conjunto de sintomas. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência, mas há outras, como a demência vascular, a demência com corpos de Lewy e a demência frontotemporal.

A depressão pode ser confundida com demência?

Sim. Nas pessoas mais velhas, a depressão pode afetar a atenção e a memória de forma marcada. Tratar a depressão pode melhorar estas queixas, e a avaliação ajuda a distinguir as duas situações, que também podem coexistir.

Porque é que um psiquiatra acompanha pessoas com demência?

Porque a demência traz muitas vezes depressão, ansiedade, alterações do sono, agitação ou alucinações, e porque é preciso distinguir a demência de outras causas tratáveis. A avaliação psiquiátrica ajuda no diagnóstico, no tratamento destes sintomas e no apoio à família, em articulação com a Neurologia e com o médico de família.

O que posso fazer para reduzir o risco de demência?

Controlar a tensão arterial, a diabetes e o colesterol, não fumar, moderar o álcool, manter atividade física, social e intelectual, corrigir a perda auditiva e tratar a depressão. Estes cuidados associam-se a menor risco ao longo da vida, embora não garantam que a doença não surja.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde. Dementia (ficha informativa). Fonte oficial
  2. Diniz BS, et al. Late-life depression and risk of vascular dementia and Alzheimer’s disease: systematic review and meta-analysis of community-based cohort studies. Br J Psychiatry. 2013;202(5):329–335. doi:10.1192/bjp.bp.112.118307 · PubMed
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Dementia: assessment, management and support for people living with dementia and their carers (NG97). 2018. Fonte oficial
  4. Livingston G, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. Lancet. 2024;404(10452):572–628. doi:10.1016/s0140-6736(24)01296-0 · PubMed

Esta página é informativa e não substitui uma avaliação médica individual.

Uma avaliação psiquiátrica pode ser o primeiro passo.

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