Falar de psicose não é o mesmo que falar de esquizofrenia. A psicose é um conjunto de sintomas que pode surgir em várias situações, com causas, evolução e tratamento diferentes.
O que são
Fala-se de psicose quando há uma alteração importante na forma de perceber, pensar e interpretar o que se passa à volta, ao ponto de se tornar difícil distinguir o que vem da experiência interior daquilo que é partilhado por outras pessoas.
Muitas vezes, quem está a viver uma psicose não reconhece estas alterações como sintomas. Por isso, o olhar de quem está próximo é muitas vezes importante. A psicose pode surgir uma única vez ou repetir-se, instalar-se de forma súbita ou gradual. Com avaliação e tratamento adequados, muitas pessoas recuperam e retomam a sua vida.
Como se podem manifestar
- perceções que outras pessoas não partilham, como ouvir vozes ou ver coisas que os outros não veem;
- crenças muito difíceis de questionar, por exemplo de estar a ser perseguido, vigiado ou alvo de mensagens especiais;
- pensamento ou discurso mais desorganizado, difícil de acompanhar;
- alterações importantes do comportamento, pouco habituais na pessoa;
- isolamento, desconfiança ou afastamento de amigos e família;
- deterioração significativa do funcionamento na escola, no trabalho ou no cuidado consigo próprio.
Antes de um primeiro episódio podem existir, durante semanas ou meses, sinais mais subtis: alterações do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade ou perda de interesse.
Nem todas as psicoses são iguais
A psicose pode fazer parte de situações muito diferentes: perturbações psicóticas como a esquizofrenia ou a perturbação esquizoafetiva, episódios breves desencadeados por stress intenso, episódios de doença bipolar ou de depressão grave, consumo de substâncias (como canábis, estimulantes ou álcool), alguns medicamentos e doenças médicas ou neurológicas. Pode também surgir no pós-parto ou, em pessoas mais velhas, associada a demência ou a estados de confusão.
Identificar a causa é essencial, porque o tratamento e a evolução dependem dela.
Avaliação
A avaliação psiquiátrica reconstrói a história clínica e a evolução dos sintomas: quando surgiram e como se foram modificando. Considera também a saúde física, a medicação, o consumo de substâncias, os antecedentes familiares e o impacto no funcionamento do dia a dia.
Quando necessário, pedem-se análises, exames de imagem cerebral ou outros exames, para excluir causas médicas. Sempre que a pessoa concorde, ouvir a família ou alguém próximo ajuda a completar a informação.
Tratamento
O tratamento é ajustado a cada pessoa e à causa da psicose. Pode incluir:
- medicação, em regra antipsicótica, escolhida tendo em conta a eficácia e os possíveis efeitos indesejados;
- intervenção psicológica, como a terapia cognitivo-comportamental para a psicose;
- psicoeducação, para compreender o que está a acontecer e reconhecer sinais de alerta;
- apoio familiar e envolvimento das pessoas próximas;
- outras medidas, como regularizar o sono, reduzir ou parar o consumo de substâncias e apoiar o regresso à escola ou ao trabalho.
Começar o tratamento cedo está associado a uma melhor evolução.
Acompanhamento
O acompanhamento regular permite avaliar a resposta, ajustar a medicação, vigiar efeitos indesejados e a saúde física, e prevenir recaídas. A duração do tratamento depende da causa e da evolução, e é decidida em conjunto.
Quando procurar ajuda rapidamente
Ligue 112 ou dirija-se ao serviço de urgência mais próximo perante:
- uma alteração súbita e marcada do comportamento;
- risco para a própria pessoa ou para outros, incluindo pensamentos de suicídio;
- incapacidade de cuidar de si, de se alimentar ou de se proteger;
- confusão intensa, febre ou outros sintomas físicos associados;
- agitação grave ou ameaças.
Perguntas frequentes
Psicose é o mesmo que esquizofrenia?
Não. A esquizofrenia é uma das situações em que pode existir psicose, mas há muitas outras causas, algumas temporárias. Um episódio psicótico não significa, por si só, um diagnóstico de esquizofrenia.
É possível recuperar de uma psicose?
Sim. Muitas pessoas recuperam de um episódio psicótico, sobretudo quando o tratamento começa cedo. Noutras situações a evolução é mais prolongada, e o acompanhamento ajuda a manter a estabilidade e a qualidade de vida.
Como posso ajudar um familiar?
Mantenha uma atitude calma e sem confronto, evite discutir as crenças da pessoa e incentive uma avaliação médica. Se houver risco imediato, ligue 112.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management (CG178). 2014, atualizada.
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª ed., texto revisto (DSM-5-TR). 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Schizophrenia, nota informativa. 2022.
Esta página é informativa e não substitui uma avaliação médica individual. Revisão clínica: Pedro Zuzarte, médico psiquiatra · Publicado e revisto: .