Álcool e outras substâncias: quando procurar ajuda

O consumo de álcool e de outras substâncias vai do consumo de risco à dependência, e pode agravar a ansiedade, a depressão e o sono, ou ser alimentado por elas.2,6 Pedir ajuda cedo facilita o tratamento, que combina intervenções psicológicas e, quando indicado, medicação.1

Pintura de John Frederick Kensett: um lago de águas paradas e claras estende-se até colinas arborizadas, sob um céu claro com nuvens leves; à direita, ramos de um arbusto sobre uma rocha na margem

Águas paradas e uma margem firme: a estabilidade que se constrói passo a passo.

John Frederick Kensett, Lake George, 1872, 1872. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Domínio público. Registo da obra (site externo)

Em resumo

O consumo de álcool e de outras substâncias vai do consumo de risco, ainda sem consequências visíveis, à dependência, marcada por desejo intenso e perda de controlo. Associa-se muitas vezes a ansiedade, depressão e insónia. O tratamento combina intervenções psicológicas e, quando indicado, medicação, e quem bebe muito diariamente não deve parar de repente sem orientação médica. Pedro Zuzarte, psiquiatra em Lisboa, faz esta avaliação em consulta.

Qual é a diferença entre consumo de risco e perturbação?

O consumo de álcool é um contínuo, e uma pessoa pode passar de um nível para outro nos dois sentidos.8 Distinguem-se habitualmente três situações:

  • Consumo de risco: um padrão de consumo que traz risco de consequências para a saúde se se mantiver, mas ainda sem problemas visíveis. O consumo episódico excessivo, muita bebida numa só ocasião, conta como consumo de risco.8
  • Consumo nocivo: um padrão que já causa problemas de saúde, físicos ou psicológicos, como depressão, acidentes ou pancreatite.2
  • Dependência: caracteriza-se por desejo intenso de beber, tolerância, preocupação constante com o álcool e consumo continuado apesar das consequências; tem graus de gravidade.2

A Organização Mundial da Saúde sublinha que nenhuma forma de consumo de álcool é isenta de risco, embora a maior parte dos danos venha do consumo excessivo, ocasional ou continuado; o álcool associa-se a doenças do fígado e do coração, a vários cancros e a perturbações como a depressão e a ansiedade.5 Com outras substâncias, como a canábis, a cocaína ou medicamentos usados fora da prescrição, a lógica é semelhante: importa o padrão, a perda de controlo e o impacto na vida.

Que sinais devem fazer pensar num problema?

Alguns sinais merecem atenção, no próprio ou em alguém próximo; com outras substâncias, os sinais são semelhantes:2,8

  • beber mais, ou mais vezes, do que se pretendia;
  • sentir um desejo tão forte de beber que não se consegue controlar;
  • precisar de quantidades maiores para obter o mesmo efeito;
  • passar longos períodos a beber ou sob o efeito do álcool, ou pensar constantemente no próximo consumo;
  • o consumo interferir com o trabalho, os estudos ou a vida em casa, ou causar problemas emocionais;
  • beber em situações em que se pode magoar, como antes de conduzir;
  • continuar apesar de consequências para a saúde, como doença do fígado ou depressão.

Muitas vezes, quem bebe de mais tende a desvalorizar o problema, e o estigma dificulta pedir ajuda; uma conversa franca, sem julgamento, é o ponto de partida.1

Que relação há com a ansiedade, a depressão e a insónia?

Estreita, e nos dois sentidos. A perturbação de uso de álcool coexiste muitas vezes com outras perturbações psiquiátricas, e a relação entre elas é variada: o álcool pode causar ou agravar sintomas, as outras perturbações podem levar a beber mais, e ambas podem partilhar fatores genéticos e ambientais.6 Fala-se de diagnóstico duplo quando as duas coexistem.

Na prática clínica, o NICE recomenda tratar primeiro o consumo excessivo de álcool em quem tem também depressão ou ansiedade, porque isso pode trazer uma melhoria significativa destes sintomas; se a depressão ou a ansiedade persistirem após três a quatro semanas sem álcool, avaliam-se e tratam-se de forma específica.1 Os antidepressivos não devem ser usados por rotina para tratar apenas o consumo de álcool.1 Ver também Depressão e Ansiedade.

No sono, o álcool em quantidade antes de deitar pode ajudar a adormecer, mas perturba a segunda metade da noite e torna o sono de pior qualidade. No consumo prolongado, as alterações do sono podem manter-se durante a abstinência e contribuir para recaídas.7 A página Insónia descreve os tratamentos sem recurso ao álcool.

Quando procurar um psiquiatra?

Vale a pena pedir uma avaliação quando:

  • tentou reduzir ou parar e não conseguiu;
  • o consumo está a causar problemas de saúde, no trabalho ou nas relações;
  • usa o álcool ou outras substâncias para aliviar a ansiedade, o humor em baixo ou a insónia, ou estes sintomas acompanham o consumo;
  • bebe diariamente em grande quantidade e quer parar, porque nesse caso a paragem deve ser planeada com um médico;3
  • alguém próximo está preocupado consigo.

Os familiares também podem precisar de apoio e informação, incluindo grupos de apoio dirigidos às famílias.1 Confusão, alucinações ou convulsões depois de parar de beber são uma urgência médica.3

Porque não se deve parar de beber de repente?

Em quem tem dependência de álcool, uma redução súbita do consumo pode provocar uma síndrome de abstinência grave.3 Nas formas mais graves podem surgir convulsões ou delirium tremens, um estado de confusão com agitação e alucinações, que exige internamento hospitalar.3

Por isso, o NICE aconselha quem é dependente e não está internado a evitar reduzir o consumo de forma súbita e a procurar apoio especializado.3 A desabituação é feita com acompanhamento médico, habitualmente em ambulatório e, quando há riscos acrescidos, como antecedentes de convulsões ou de delirium tremens, doenças graves associadas ou consumo muito elevado, em internamento.1 A medicação usada nesta fase, como as benzodiazepinas, é prescrita e vigiada por um médico, e pode ser necessária tiamina (vitamina B1) para prevenir uma complicação neurológica, a encefalopatia de Wernicke.3

Como é feita a avaliação?

A avaliação procura perceber o padrão e a quantidade de consumo, a gravidade da dependência, o risco de abstinência, as consequências físicas, psicológicas e sociais, e a presença de outras perturbações.1 Usam-se questionários validados, como o AUDIT, que a Direção-Geral da Saúde recomenda para a deteção precoce do consumo excessivo nos cuidados de saúde primários.1,8 Consoante o caso, podem ser pedidas análises, por exemplo da função hepática.1

O objetivo do tratamento é combinado com a pessoa. Na dependência, e quando há doença psiquiátrica ou física significativa, a abstinência é em geral o objetivo mais adequado; no consumo nocivo ou na dependência ligeira, sem outros problemas relevantes, pode ponderar-se um consumo moderado.1

Em psiquiatria, a avaliação é feita em consulta, presencial em Lisboa ou por teleconsulta, em português, inglês ou espanhol.

Como se trata?

O tratamento começa por uma intervenção motivacional, que ajuda a reconhecer os problemas, a resolver a ambivalência e a acreditar na capacidade de mudar, num tom de apoio e não de confronto.1 Depois, as opções incluem:

  • Intervenções psicológicas centradas no consumo, como as terapias cognitivo-comportamentais e comportamentais, as intervenções sobre a rede social e o ambiente e, quando há um parceiro disponível, a terapia comportamental de casal.1
  • Medicação para prevenir recaídas, depois da desabituação, na dependência moderada a grave: o acamprosato ou a naltrexona oral, em combinação com intervenção psicológica; o dissulfiram é uma alternativa em situações específicas, com vigilância próxima.1 Antes de iniciar, faz-se uma avaliação médica com análises.1
  • Outras substâncias: no uso de drogas, o NICE recomenda intervenções psicossociais como a gestão de contingências e a terapia comportamental de casal, e o tratamento dos problemas de saúde mental associados; os grupos de autoajuda podem ser um complemento.4

O plano é individual, revisto ao longo do tempo, e envolve a família quando a pessoa concorda.1 Quando o objetivo de abstinência ainda não é aceite, um programa de redução de riscos pode ser um primeiro passo.1

Onde pedir ajuda em Portugal?

Em Portugal, a resposta pública especializada está a cargo do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD, I.P.), criado em 2023, que sucedeu ao antigo SICAD.11 O ICAD disponibiliza:

  • a Linha 1414, um serviço anónimo, gratuito e confidencial de aconselhamento, informação e encaminhamento sobre álcool, outras substâncias e comportamentos aditivos, que não marca consultas mas facilita o contacto com os serviços;9
  • um módulo de inscrição pública, que permite fazer online uma pré-inscrição numa equipa especializada;9
  • uma rede de estruturas de apoio, como os Centros de Respostas Integradas e as Unidades de Alcoologia, pesquisável por distrito e concelho.10

O médico de família pode fazer a deteção precoce e uma intervenção breve e encaminhar para consulta especializada quando há sinais de dependência.8 Para aconselhamento clínico não urgente, o SNS 24 pode orientar; numa consulta de psiquiatria, avalia-se também a ansiedade, a depressão ou a insónia que muitas vezes acompanham o consumo.

Perguntas frequentes

Beber todos os dias é sinal de dependência?

Não necessariamente, mas merece atenção. A dependência define-se sobretudo por desejo intenso de beber, tolerância, preocupação com o álcool e consumo continuado apesar das consequências, e não apenas pela frequência. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde lembra que nenhum consumo de álcool é isento de risco. Se tem dúvidas, o médico de família ou um psiquiatra podem avaliar o seu padrão de consumo.

Posso deixar de beber sozinho?

No consumo de risco, a Direção-Geral da Saúde prevê aconselhamento simples ou uma intervenção breve, muitas vezes feitos pelo médico de família. Na dependência, sobretudo com consumo diário elevado, parar de repente pode causar uma síndrome de abstinência grave, com risco de convulsões ou delirium tremens, pelo que a paragem deve ser planeada com um médico. A desabituação faz-se habitualmente em ambulatório e, nos casos de maior risco, em internamento.

O álcool ajuda a dormir?

Beber em quantidade antes de deitar pode ajudar a adormecer, mas perturba o sono na segunda metade da noite e reduz a sua qualidade. Com o consumo prolongado, as alterações do sono podem manter-se mesmo depois de deixar de beber e contribuir para recaídas. A insónia tem tratamentos eficazes, como a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, que não passam pelo álcool.

Existe medicação para a dependência de álcool?

Sim. Depois da desabituação, na dependência moderada a grave, o NICE recomenda considerar o acamprosato ou a naltrexona oral, sempre em combinação com uma intervenção psicológica; o dissulfiram é uma alternativa em situações específicas. Antes de iniciar, faz-se uma avaliação médica com análises, e o tratamento é vigiado com regularidade. A escolha é feita em consulta, caso a caso.

A quem posso ligar em Portugal para pedir ajuda?

A Linha 1414, do ICAD, é um serviço anónimo, gratuito e confidencial de aconselhamento, informação e encaminhamento sobre álcool, outras substâncias e comportamentos aditivos. O ICAD tem também um módulo de inscrição pública online e uma rede de Centros de Respostas Integradas e Unidades de Alcoologia. O médico de família e uma consulta de psiquiatria são outras portas de entrada.

Pontos-chave

  • O consumo de álcool e de outras substâncias vai do consumo de risco à dependência, e coexiste muitas vezes com ansiedade, depressão e insónia, numa relação que funciona nos dois sentidos.
  • Quem tem dependência não deve parar de beber de repente sem orientação médica; o tratamento combina intervenções psicológicas e, quando indicado, medicação, e em Portugal o ICAD e a Linha 1414 são pontos de acesso à rede pública especializada.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis, assessment and management of harmful drinking (high-risk drinking) and alcohol dependence (CG115). 2011, atualizada em 2014. Recomendações. Fonte (site externo)
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders (CG115). Contexto: definições de consumo nocivo e de dependência de álcool. Fonte (site externo)
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis and management of physical complications (CG100). 2010, atualizada em 2017. Recomendações 1.1 (abstinência alcoólica aguda) e 1.2 (encefalopatia de Wernicke). Fonte (site externo)
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Drug misuse in over 16s: psychosocial interventions (CG51). 2007. Fonte (site externo)
  5. Organização Mundial da Saúde. Alcohol. Folha informativa, 28 de junho de 2024. Fonte (site externo)
  6. Castillo-Carniglia A, Keyes KM, Hasin DS, Cerdá M. Psychiatric comorbidities in alcohol use disorder. Lancet Psychiatry. 2019;6(12):1068–1080. doi:10.1016/S2215-0366(19)30222-6 PubMed (site externo)
  7. Colrain IM, Nicholas CL, Baker FC. Alcohol and the sleeping brain. Handb Clin Neurol. 2014;125:415–431. doi:10.1016/B978-0-444-62619-6.00024-0 PubMed (site externo)
  8. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 030/2012: Deteção precoce e intervenção breve no consumo excessivo do álcool no adulto. 28 de dezembro de 2012. Fonte (site externo)
  9. Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD, I.P.). Pedir ajuda: módulo de inscrição pública e Linha 1414. Fonte (site externo)
  10. Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD, I.P.). Estruturas de apoio: Centros de Respostas Integradas e Unidades de Alcoologia. Fonte (site externo)
  11. Decreto-Lei n.º 89/2023, de 11 de outubro: cria o ICAD, I.P., que sucede ao SICAD. Diário da República, 1.ª série, n.º 197. Fonte (site externo)

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